[Paraguai] Porque sim lutar! do Grupo Afin Anarquista Insurrecto

Nota de Cumplicidade:

Sexta 30 de março, o Congresso em Assunção, no Paraguai esteve em chamas. Milhares de pessoas nas ruas indignadas pela tentativa do atual presidente de modificar a constituição para poder postular de novo à presidente nas próximas eleições.  Muitas pessoas se indignaram temendo uma “volta da ditadura” e o partido da oposição ao governo, o “partido liberal radical” chamou ao “povo” a estar presente nas ruas, com certeza, procurando através disso, poder conquistar o poder.  Mais de 200 pessoas foram detidas no dia, entre elas muitos menores de idade, também foi assassinado um membro do partido liberal.

O texto que recebemos é um texto de companheirxs que relatam a revolta das ruas, transpira a rebeldia dxs compas que, mesmo sabendo das manobras e manipulações que os partidos políticos costumam fazer diante de cenários de “crises” políticas como estas, decidiram sair às ruas. Saudamos a rebeldia dxs companheirxs e esperamos que esses impulsos de liberdade fomentem a destruição do poder derrubando assim as artimanhas dos partidos que incansavelmente buscam conquistá-lo…

Recebimos o texto no email e traduzimos ao português:

“Porque sim lutar!”

Porque estamos alerta? Porque estamos movilizadxs? Porque estivemos na rua? Porque convidamos à mobilização social apesar do chamado de vários setores a não sair nas ruas? Não nos fazemos ilusões puristas respeito à conjuntura política atual. Sabemos que os setores enfrentados respondem a grupos de poder no qual toda a direita e uma parte importante da esquerda partidária têm uma grande responsabilidade.

Antigos golpeados convertem-se em golpistas e uma parte do golpismo converte-se em golpeado fazendo chamados a defender à constituição e a democracia. Seria igualmente de ingênuo negar que desde 2012 tem-se estado dando um enforcamento das faculdades do executivo que está exercendo uma espécie de ditablanda capaz de mudar à ditadura segundo seus interesses e segundo a circunstância contribuindo ao enfraquecimento das organizações sociais especialmente no campo com a militarização e ao saqueo transnacional dos recursos através das privatizações.

Não conseguimos frear a aliança pública privada em cujo dia de aprovação teve uma mobilização com milhares de pessoas que foi reprimida quase sem resistência. Não conseguimos frear a modificação da lei de defesa interna que coloca o exército à disposição do executivo que pode o utilizar à sua vontade. Super poderes comparáveis a aqueles possuídos pela ditadura stronista mas agora investida de uma maleabilidade tal que até soa a ficção.
Enquanto o setor mais purista da esquerda se submerge num interminável processo de acumulação de forças apresentando-a como única alternativa em direção à revolução mediante a constituição do CDP e a criação de um tal poder popular, o Cartismo avança a passos agigantados como ponta de lança dos grupos econômicos que representa.

Outra parte da esquerda, por seu caráter reformista e com ênfase no cálculo político e não social arrastrou a grande parte dos seus ativistas a uma tibieza tal ( senão conservadora) que a torna inepta na hora de enfrentar o terrorismo de estado que tem ido também realizando essa acumulação de forças. Ao nível macro-político a acumulação de força não se tem reflexado em um ataque real às estruturas repressivas do estado senão que as vezes até as reforça. Grandes mobilizações, juntadas de firmas, encontros simbólicos, microfones abertos e até alianças “estratégicas” têm demostrado a incapacidade da esquerda de tumbar o projeto cartista sem a ajuda de uma hipotética crise económica ou política.

Esta crise política presente é um momento propicio para mudar o paradigma vitimista e passivo das organizações diante do atropelo neoliberal, estão-se lançando nas ruas de forma espontânea coletivos e grupos auto-organizados numa atitude ofensiva contra o estado terrorista- valha a redundância. A imprensa somente fala da queima do congresso, a repressão e a morte de um militante liberal, mas não fala dos milhares de pessoas que se auto-convocaram com a maior das raivas iniciando uma luta nas ruas no micro-centro que demorou mais de cinco horas em ser controlada.

Construíram-se barricadas quase em cada rua do micro-centro ao grito de “ditadura nunca mais” e não escutamos a nenhum político falar de essa grande festa popular que não conseguiu ser dirigida por “caudillito” de nenhum signo. Pois, não somente os liberais disputaram o terreno ao impulso destrutor da raiva cidadã. Todos eles falavam de repressão, repressão e mais repressão. Quem se autoconvocou e lutou nas ruas essa noite sabemos que teve repressão, mas falemos do outro, falemos da revolta, da luta na rua, contra o braço armado do capital. Entendemos o medo que têm os poderosos que se expanda esse relato, por isso procuram artimanhas para desviar a atenção com o fim de evitar o mais possível uma nova explosão de ira. Os liberais sabem que não pode ser controlada por eles, os futuros cúmplices inibidos devem saber que a linguagem da sexta 31 é a única linguagem pela qual se poderá retroceder o crescente enforcamento do terrorismo de estado e porque não, uma nova ditadura.

Quem duvida e, tomar as ruas contra a repressão apesar de estar contra ela argumentando neste momento que seria como “ajudar” à direita, ou estão presos do medo ou não estão à altura da situação.

Abaixo o terrorismo de Estado! Abaixo o Estado! Abaixo o Estado e seus políticos! Abaixo o Estado e o capital! Fora Cartes! Fora todos!.

Arriba lxs que luchan!

Grupo Afín Anarquistas Insurrectos (GAAI)

Posted in Guerra Social, paraguai | Leave a comment

Lançamento: “Os Fuzis e as Flechas: História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura”, de Rubens Valente

Retirado de ANA:

Jornalista documenta violências sofridas pelos Índios durante o período da ditadura e que até recentemente eram ocultadas pelos militares

“Os Fuzis e as Flechas”, do jornalista Rubens Valente, é uma investigação jornalística de fôlego, que descreve centenas de mortes de indígenas durante a ditadura militar no Brasil (1964-85). O livro traz à tona registros inéditos de erros e omissões, relata invasões de terra, tortura, prisões arbitrárias e assassinatos de índios cometidos pelo Estado.

Durante quase dois anos, Valente entrevistou mais de oitenta pessoas, entre índios, sertanistas, missionários e indigenistas, percorreu 14 mil km de carro, esteve em dez estados e dez aldeias indígenas do Amazonas, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. O autor teve acesso aos documentos escritos, sob sigilo, pelos militares e que só começaram a ser liberados à pesquisa nos anos 2000. Foram consultadas milhares de páginas coletadas em arquivos de Brasília, São Paulo e Rio. As apurações de campo foram reforça das com a leitura de milhares de páginas de documentos cujo sigilo foi desclassificado em especial a partir de 2008.

“Este livro, apurado e escrito entre outubro de 2013 e setembro de 2015, é também o resultado da experiência e das histórias por mim acumuladas ao longo de 26 anos de reportagem para jornais de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, período em que conheci cerca de trinta terras indígenas, dentre as quais yanomami, terena, guarani, nambikwara, tapirapé e xavante”, conta Rubens Valente no texto de introdução do livro.

Entre os fatos narrados, Valente revela que, pela primeira vez, militares que tiveram contato com a construção da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista) reconheceram em entrevistas gravadas que souberam de mortes de índios waimiri-atroari em conflitos armados com militares na década de 70. A estrada foi aberta pelo Exército nos anos 70. Ex-operários da rodovia também disseram ter visto grupos de índios serem rendidos por soldados sob a mira de fuzis.

Em outro episódio, descrito em detalhes pelo autor, Valente conta que um documento produzido pelo SNI em 1976 levou à localização, quarenta anos depois, de uma testemunha que trabalhava para a Funai e confirmou ter presenciado o assassinato de índios korubo na Amazônia em 1975. As mortes, segundo a testemunha, ocorreram em um confronto armado com funcionários da Funai no Amazonas e haviam sido descartadas em duas investigações oficiais. A testemunha revelou, porém, que os depoimentos prestados durante a ditadura militar foram combinados com o intuito de abafar o episódio.

> Rubens Valente nasceu em Goioerê (PR), em 1970. Jornalista da Folha de S. Paulo desde 2000, fez reportagens em mais de trinta terras indígenas, principalmente nos anos 1990. Desde 2010 é repórter do jornal na sucursal de Brasília.

Os Fuzis e as Flechas: História de Sangue e Resistência Indígena na Ditadura”

Autor: Rubens Valente

Editora: Companhia das Letras

Quanto: R$ 69,90 (520 págs.)

Posted in Eventos, Luta Indígena, Luta pela Terra, Memoria Combativa | Leave a comment

[EUA] Uma vitória e uma terrível notícia para Mumia Abu-Jamal

Retirado de ANA:

Noelle Hanrahan da “Prison Radio” reporta que o Departamento de Correções [DOC – instituições de saúde norte-americanas] do estado da Pensilvânia informou a Mumia hoje [27/03] que lhe darão o tratamento anti-viral para Hepatite C a partir da semana que entra. O tratamento consiste em uma pílula cada dia durante um período de 12 – 24 semanas e tem uma taxa de efetividade de mais de 90%. Esta é uma grande vitória para Mumia, seus advogados Bret Grote e Robert Boyle, e todo o movimento; também abre o caminho para que milhares de outros presos e presas recebam tratamento.

Mas o DOC também informou a Mumia que agora tem classificação de F4, quer dizer, sua Hepatite C está muito avançada e tem cirrose do fígado. Obviamente este dano é a direta consequência da negação do DOC de dar-lhe tratamento durante dois anos e aumenta o perigo do câncer de fígado e outras complicações da saúde. Não sabemos qual será o efeito do tratamento nestas condições.

Recordamos que faz dois anos, em 30 de março de 2015, Mumia entrou em um choque diabético e quase morreu. Também sofria de uma horrível condição da pele. Ao descobrir que a causa básica de suas enfermidades foi a Hepatite C, uma constante luta ocorreu no movimento internacional e nas cortes para conseguir-lhe tratamento.

Em setembro de 2016, o juiz federal Robert Mariani determinou que a negação de dar tratamento aos presos na Pensilvânia foi uma violação de seus direitos constitucionais e que o altíssimo custo das drogas Sovaldi e Harvoni vendidos por Gilead Sciences não era uma razão válida para negar-lhes tratamento. Em janeiro passado, o juiz Mariani ordenou ao DOC a dar tratamento a Mumia, mas o DOC se negou a fazê-lo e tentou conseguir um adiamento. No entanto, na segunda-feira passada um grupo de 3 juízes federais rechaçou sua petição para adiar o tratamento.

Agora o DOC diz que o tratamento será iniciado na semana que entra, mas é preciso estar alerta para que não invente outro truque para não fazê-lo. E sobretudo, é preciso aumentar a pressão pela LIBERDADE de Mumia. Em seu aniversário, em 24 de abril, ele estará na corte para apelar sua sentença original de culpabilidade. MUMIA LIVRE JÁ!

Para mais informação vejam www.prisonradio.org

Fonte: https://amigosdemumiamx.wordpress.com/2017/03/31/una-victoria-y-una-terrible-noticia-para-mumia/

Posted in Estados Unidos, Guerra Social, Mumia Abu-Jamal, presxs, Solidariedade | Leave a comment

[Maquiné-RS] Retomada Mbyá-Guarani – Relato da Reunião de Apoiadores

Retirado de ANA:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/files/2017/04/maquine-rs-retomada-mbya-guarani-relato-da-reuni-1.jpg

Depois de três dias e noites reunindo-se e conversando entre si, os Mbyá-Guarani de Maquiné chamaram para uma reunião as pessoas e organizações que apoiam a Retomada Guarani. Essa reunião aconteceu no domingo, 02 de abril, na nova aldeia Mbyá-Guarani de Maquiné (ainda sem nome), na área que antes era usada pela FEPAGRO – Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária, extinta pelas políticas de austeridade do governador [do Rio Grande do Sul] José Ivo Sartori.

Ninguém é sem ninguém.” – Cacique André dos Mbyá-Guarani de Maquiné.

Os caciques André, de Maquiné, e Cirilo, da Lomba do Pinheiro e representante dos Guarani de todo Rio Grande do Sul, demonstraram imensa alegria e esperança pela construção dessa nova aldeia em uma terra tão rica e fértil. Ao contrário das terras geralmente demarcadas pelo Estado – improdutivas, tomadas por monoculturas de soja e eucalipto, inadequadas para o modo de vida tradicional dos Guarani – a terra retomada para a construção da nova aldeia é coberta de mata nativa, árvores frutí feras e nascentes de água potável cristalina. Eles deixaram clara a intenção de resistir e lutar pela terra, indiferente do que o homem-branco e suas instituições decidirem.

Depois de breves falas dos dois caciques, abriu-se um espaço para que as apoiadoras e apoiadores se apresentassem. Apresentaram-se representantes e integrantes da Ação Nascente Maquiné (ANAMA), Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários (AEPIM), Amigos da Terra Brasil, Jornal Já, diversos professores e estudantes dos cursos de antropologia e geografia da UFRGS, partidários do Movimento Raiz, fiéis de uma igreja (não identificada), além de várias anarquistas e morado ras de Maquiné que apóiam a retomada Guarani.

Não precisamos subir degraus pra ter poder, pra falar. Na nossa cultura qualquer criança pequena tem esse poder.” – Cacique Cirilo

Houveram algumas intervenções que informaram o andamento dos processos jurídicos. Sobre a liminar que pede a “reintegração de posse”, que retiraria a terra dos indígenas e as recolocaria nas mãos do Estado: um juiz de 2ª instância deveria se manifestar na terça-feira, 04 de abril. Mesmo no caso de o juiz ordenar a reintegração de posse, ela não deverá ser imediata, pois a Brigada Militar não pode interferir com os povos indígenas sem a presença da FUNAI e da Polícia Federal. Os apoiadores dos mbyá-guarani que estão acompanha ndo a questão legal apresentaram um certo otimismo.

Outra informação relevante é que um antropólogo da FUNAI iria comparecer a aldeia na segunda-feira, 03 de abril, para começar a levantar dados sobre a retomada.

Por quê não nos dão uma terra boa para criar galinha, pra plantar batata-doce, pra não dependermos do Estado? É uma forma que o Estado cria pra nos dominar.” – Cacique Cirilo

Depois das conversas no turno da manhã, foi servido um almoço. À tarde os caciques retomaram a conversa, pedindo para os militantes do Movimento Raiz explicarem o que é esse movimento. Seguiu-se então um mini-comício do partido por cerca de 20 minutos, explicando os seus conceitos e suas aspirações. O discurso foi tão sedutor que o próprio Cacique Cirilo, ao fim, falou que já que os guarani estão recebendo apoio do Raiz ele não via por quê eles também não poderiam apoiar o movimento. Não ficou claro se o Cacique compreendeu que está lidando com um partido político, que está em processo de coleta de assinaturas para sua regularização para assim concorrer a cargos no governo.

Em seguida falou-se do levantamento de verbas para realizar dois encontros do povo guarani que eles consideram muito importantes para fortalecer a retomada. Aparentemente, o Raiz tinha ficado responsável por esta campanha, divulgando contas bancárias para que apoiadores fizessem essas doações. Parece que não chegaram nem perto do valor necessário – entretanto não se mencionaram valores, nem o quanto é necessário, nem o quanto foi arrecadado. Militantes do partido falaram então em realizar um projeto para conseguir verba através da Igreja Luterana. Nesse momento o Cacique André demon strou sua frustração, explicando que não entende por que o branco faz tanto projeto e projeto e nunca faz as coisas de fato.

As burocracias existem pra que a gente não consiga fazer nada.” – Cacique Cirilo

Aparentemente, o que os guarani precisam para realizar os encontros são muitas taquaras para construir o telhado de 20 casas, transporte para essas taquaras e para os guarani de outras aldeias possam ir ao encontro e alimentação para o encontro.

O juruá (homem-branco) adora fazer reunião. É reunião o tempo todo. Eu não agüento mais reunião. Daqui a pouco vou ficar branco de tanta reunião.” – Cacique Cirilo

Conclusões

Os mbyá-guarani demonstram ter uma visão autonomista, compatível com os valores anarquistas (como dá pra perceber pela citações dos caciques ao longo deste texto). Eles estão recebendo bastante apoio na área jurídica e inclusive com doações de alimentos. Entretanto parece que em alguns aspectos o apoio à retomada encontra-se preso nas burocracias das instituições que os apóiam.

Embora anarquistas e outros apoiadores autônomos tenham tido um papel importante na solidariedade com a Retomada Guarani, com produção audiovisual, transporte, organização de campanhas independentes de arrecadação de doações, ficamos com a impressão que eles são meio que deixado de lado pelas instituições, das quais não percebemos nenhum esforço com o compartilhamento de informações e criação de uma ampla rede de comunicação e articulação para os apoiadores da Retomada. Por exemplo, falou-se de em caso de “r eintegração de posse” pelo Estado, que todos fossem à aldeia prestar sua solidariedade com os guarani, mas não se falou de como se fará a comunicação para a difusão dessas informações para que um número significativo de apoiadores consiga comparecer de fato à aldeia. Quando perguntamos sobre a existência de algum canal de comunicação entre os apoiadores, as instituições foram reticentes e evasivas.

Também tememos que com a presença de partidos políticos, os mbyá-guarani possam ser usados e influenciados a apoiarem essas causas, que lhes são vendidas com as mais doces palavras.

Por essas duas razões – a falta de uma rede autônoma de apoio e solidariedade à Retomada Guarani, que faz com que muitos apoiadores não saibam como ajudar e se somar, e a presença de partidos políticos – achamos importante uma participação anarquista mais articulada e organizada. Sentimos que uma rede verdadeiramente autônoma é capaz de difundir as necessidades da Aldeia e engajar mais pessoas a se somar em solidariedade e defesa à essa retomada. Deixamos o convite para que entre em contato pelo nosso e-mail (coisapreta@bastardi.net) para construir essa articulação.

Ninguém manda no Guarani. Ele que sabe como viver e onde viver. Somos livres pra ir onde quisermos. Os brancos não entendem isso.” – Cacique André

Fonte: https://coisapreta.noblogs.org/relato-da-reuniao-de-apoiadores-da-retomada-guarani-02042017/

Posted in Guerra Social, Luta pela Terra, Solidariedade | Leave a comment

[Uruguai] Comunicado da assembleia aberta de ocupantes do “La Solidaria” (o que os meios de comunicação nunca dirão)

Retirado de ANA:

Desde estas linhas queremos revindicar certos acontecimentos ocorridos na manifestação em repúdio ao desalojo do Centro Social Autônomo “La Solidaria”, manifestação que convocamos e, o que tem haver com a concentração, organizamos coletivamente desde a nossa assembleia.

Desde nossa assembleia organizamos a concentração e o posterior corte da rua 21 de março. Corte que foi feito no mesmo momento em que se impunha à população o decreto do governo de esquerda, permitindo à policia reprimir os piquetes, mesmo sem ordem do juiz.

Por estes dias uma série de ataques dos meios de des-informação começa a inundar tudo, desde as flagrantes mentiras até incitações aos exércitos dos “bons cidadãos” para proteger a Ordem estabelecida. A normalidade do poder, dizem, deve ser obedecida a todo o custo. Normal é ver como se repete uma e outra vez a miséria diária da exploração e a obediência aos seus carrascos. O paradigma da dominação justa e a servidão voluntária tem a sua expressão máxima na indignação de vários mercenários da imprensa.

Mas a rua também tem as suas vozes, pois há vida (e abundante) mais além da propaganda do Capital. Muitas mentiras estúpidas, como a da multidão que marcha atacando indiscriminadamente pessoas, não serão sustentadas por todos os vizinhos que mostraram, incontáveis vezes, a sua solidariedade com o projeto e as suas lutas. A imbecil propaganda dos caguetas pensadores da Ordem não é mais forte que as relações que existem com os ocupantes ou desalojados do bairro, com os quais uma e outra vez se praticou o apoio mútuo.

O espanto de aqueles pelos quais só serve a violência quando vem do Estado não é mais forte que os laços de solidariedade, respeito e reciprocidade que se forjaram neste anos com os vizinhos, pequenos comerciantes do bairro, e das centenas de amigos da casa. Aqueles que viram os seus filhos ou amigos a fazer esporte sem competência nas aulas de boxe, desenvolver a sua sensibilidade estética nos cursos de expressão plástica, apreder língua de sinais ou crescer em relações de reciprocidade e liberdade, não podem ser engolidos pelo relato do Estado. “Vândalos estúpidos” são quem defendem a devastação da ter ra e da água, “descerebrados irresponsáveis” são os defensores do clientelismo como a única forma de relacionamento social possive l, não os que lutam contra isso.

Aqueles que nestes anos aprenderam a desenvolver a capacidade autosuficente da sociedade, a forjar acordos de forma responsável, a chegar a consensos sem necessidade de chefes ou de nenhum poder político, só se podem rir do relato dos defensores de esta anormalidade. As centenas de vizinhos e participantes que passaram estes anos pelo “La Solidaria” e pelos seus cursos ou a participar nas atividades ou coordenações, sabem que ali se pontecializava a auto-organização da luta social, longe e contrária a toda forma de opressão ou poder.

Por isso, sabemos que todos eles não se sentem ou sentiram atacados pelos companheiros do “La Solidaria”. Sabem suficientemente bem que a nossa ética nos separa de atacar indiscriminadamente, danificar as suas casas ou querer atacar a sua segurança. Usar a violência não como autodefesa se não indiscriminadamente, fechar em vez de ajudar, o modelo através do castigo, criar pautas de convivência baseadas no consumo e na dominação, são e serão os eixos do Capital e do Estado, não os nossos.

O repúdio ao desalojamento, o nosso e os dos vizinhos e companheiros, dignificou-nos e é parte essencial da nossa responsabilidade na vida. Somos conscientes onde estamos parados e fazemos algo por transformar a realidade. O repúdio ao desalojamento não foi e nem é uma luta de um grupo determinado contra o Estado, como o governo, ou uma empresa qualquer. Foi e é, parte de uma luta que não iniciamos nós mas sim uma luta que todos fazemos parte, gostemos ou não.

Entretanto a propaganda do poder é a da defesa das relações de benefício econômico, a competição permanente e o respeito às leis dos politicos e outros empresários, nós potenciamos a autorganização não hierárquica, o respeito pelas pessoas e não pelos dispositivos de domínio e exploração, a reciprocidade como motor social e a dignidade de enfrentar a ordem sem querer, às vezes, oprimir ninguém. Confundir ou misturar isto com violência gratuita é maniqueísmo e arrongância. Querer-nos obrigar a obedecer e respeitar a dominação do capitalismo financeiro, e os seus cúmplices, é pura estupidez de fanfarrões acostumado s a mandar.

Estamos solidários com as pessoas detidas logo após os acontecimentos e com todos aqueles que diariamente sofrem o mesmo, a mesma prisão, a mesma demissão, a mesma inseguridade ou o mesmo deslocamento forçado da sua casa e que sabemos que albergam as mesmas raivas e os mesmo sonhos de liberdade que nós temos. Cumprimentamos com o punho alto a todos os que se solidarizaram nestes dias prévios e nas últimas horas, companheiros do estrangeiro, do interior, vizinhos e amigos…

As casas passam… nossa luta é imparável!

Assembleia aberta de ocupantes do “La Solidaria”

Fonte: https://periodicoanarquia.wordpress.com/2017/03/22/comunicado-a-la-gilada-ni-cabida-lo-que-los-medios-nunca-diran/

Posted in Guerra Social, OKUPAS, Solidariedade, Uruguai | Leave a comment

[POA] Novo espaço da Biblioteca Kaos abre suas portas

Recebido no email:

Com a intensa sensação de ânimo que nos dá a nova ocupação, abrimos já as portas do nosso novo espaço, xs convidando à abertura o domingo 2 de abril ao meio dia. Sintam-se a vontade pra trazer suas feiras e materiais.

Aproveitamos este convite para mandar um salve aos compas de Tessalônica, Komotini, as okupas da Grécia, os compas do Chile, e Porto Alegre que nos fizeram chegar uma piscada solidaria no desalojo do espaço anterior.

Biblioteca Kaos

Posted in Guerra Social, Porto Alegre | Leave a comment

[Uruguai] Comunicado da assembleia aberta do Centro Social Autônomo “La Solidaria” ante o mandado de desalojo

Recebido no email:

Nestes dias chegou um mandado anunciando que o Centro Social Autônomo “La Solidaria” será desalojado no dia 21 de março.

A luta das pessoas para transformar a realidade não é um fenômeno novo, é um caminho antigo que recordamos com dignidade. O Estado genocida que foi criado e se impôs nestas terras, o saque da ditadura cívica-militar e sua continuação com os governos democráticos afiançando o capital financeiro, são parte de uma mesma história. A conhecemos porque somos parte dos que combateram contra esses poderes. Somos parte de cada luta pela liberdade e estamos feitos dela. Somos parte da luta pela diminuiç&atild e;o das horas de trabalho, contra o salário e seus donos. Somos parte da luta que conseguiu deter o serviço militar obrigatório, que se bateu na greve geral desobedecendo os dirigentes e somos parte da luta que se opôs a Aratirí [mineradora] e à devastação do terr itório.

E os ataques que nestes dias recrudescem são a tudo isto, não só a um local, a um punhado de refratários senão a um método e a uns princípios bem firmes de liberdade. A tentativa de desalojar “La Solidaria” para este 21 de março, é um esforço vão por deter a auto-organização social, sem partidos políticos ou igrejas, que possui seus lugares, tem suas lutas particulares e cria diariamente a resistência contra os projetos do Poder. A tentativa que mancomuna juízes, po liciais e financistas por restituir a propriedade privada e a ordem, se opõe a uma luta que demostrou várias coisas nestes cinco anos de ocupação. “La Solidaria” demostrou e demonstra diariamente que o mundo da sociedade de serviços pode ser combatido, que um mundo sem lu cro e competição pode sobreviver. Demostrou e demonstra que um mundo sem compromissos, que destroem igualmente toda individualidade assim como todo laço comunitário é atacável, burlável e pode ser vencido.

A casa onde funciona “La Solidaria” pode ser facilmente recuperada pelas forças do Estado e devolvida à especulação imobiliária, é um fato de relação de forças. Mas seus projetos de transformação não serão derrotados por este fato. Nos últimos anos os métodos de ação direta, de auto-organização se reproduziram e se, se perde um local só se perde uma pequena parte.

Nestes anos “La Solidaria” albergou diferentes estruturas auto-organizadas, grupos, atividades e iniciativas sempre com um caráter autogestionado, sem dinheiro e autônomo. Todas as atividades foram e serão sempre antiautoritárias, evitando todo racismo ou sexismo.

De muitas formas quiseram nos comprar e de muitas formas quiseram nos intimidar mas é um tecido muito forte o que nos mantêm. O que fez com que tudo continuasse com firmeza estes anos, apesar dos ataques do Poder, foi o complexo de relações solidárias criados durante estes anos. Muitas casas de similares características não suportaram os embates do processo de gentrificação, foi a capacidade para auto-organizar-se e a determinação o que fez com que “La Solidaria” tenha se mantido firme. Nossa responsabilidade é com tudo isso, com essa luta que vai muito além de nó s e que tem que ver com cada um de nós.

Às suas ofertas e aos seus cassetetes sempre opusemos um firme “não!”.

Voltem por outro quando queiram, sabem onde estamos!

Tirem suas mãos de nossos centros sociais!

Assembleia aberta do Centro Social Autônomo “La Solidaria”

Fonte: https://periodicoanarquia.wordpress.com/2017/03/03/comunicado-ante-cedulon-de-desalojo-de-la-solidaria/

Posted in DESALOJO, Guerra Social, Uruguai | Leave a comment

[Chile] Luta radical mapuche: Resistência ancestral contra o Estado e o Capital

Recebido no email por “Contra Toda Autoridad” e traduzido por ANA:

Cada individualidade, grupo, tribo ou povo originário tem suas formas de resistir a este sistema, tem suas próprias visões e formas de se organizar. Por outro lado tem o mesmo inimigo que os reprime e oprime e o fim último de suas lutas é viver livres e autônomos” – Companheiro Carlos Gutiérrez Quiduleo

1. Breve percurso de um caminho de resistência.

É de conhecimento geral que a luta do povo mapuche existe há centenas de anos. Inclusive antes de combater os conquistadores espanhóis já haviam freado o avanço do império inca impedindo sua investida ao sul do seu território hoje chamado Chile e obrigando-o a manter sua posição na zona central do “Chile”.

Conhecidas também são as batalhas e enfrentamentos com os conquistadores espanhóis, onde por mais de cem anos se levou uma guerra que pôs em xeque as pretensões dos conquistadores de dominar o território sem maiores obstáculos obrigando-os, após processos marcados pelo extermínio e cativeiro, a delimitar uma fronteira que permitisse aos mapuches manter seu território ao sul do rio Bio Bio.

Uma vez criado o Estado chileno, voltou-se a intensificar a opressão em território mapuche no que a história dos poderosos aparece denominando hipocritamente como a “pacificação da Araucanía”, o que na verdade se tratou de um extermínio étnico e cultural massivo com o objetivo de “civilizar” as terras dos “selvagens”.

Nas décadas recentes, a lógica do desalojo se intensificou após a instalação das políticas econômicas neoliberais impostas na ditadura, entregando terras ancestrais mapuches a empresas florestais e hidroelétricas, derrubando bosques, inundando terras, plantando pinhos que assassinam o ecossistema nativo e instalando plantas de processamento de celulose que devastam o território.

2. Despojo, repressão e resistência contra o Estado e o Capital.

Com a chegada da democracia se intensificou a lógica mercantil, mas como nos últimos séculos, a resistência mapuche voltou a emergir com propostas organizativas e ações diretas que apontam à autonomia do povo mapuche através da recuperação e defesa de seu território ancestral. Este objetivo tem tratado de se materializar através das últimas décadas com a articulação entre comunidades, assim como também com ação direta contra objetivos de diverso tipo, como os ataques incendiários a infraestrutura de empresas florestais, de latifundi&a acute;rios, casas de veraneio de políticos, igrejas etc. que fazem parte dos interesses dos capitalistas e do Estado chileno presentes na zona.

Heterogêneo é o panorama em que podemos chamar “luta mapuche”. Em sua paisagem encontramos ao mesmo tempo comunidades e grupos assimilados pela via institucional chilena, discursos vitimistas, comunidades em conflito, grupos de resistência armada, organizações político militares, propostas anticapitalistas/revolucionárias, ideias de liberação nacional, etc.

Em meio desta diversidade o Estado chileno busca aprofundar a resolução do conflito através da via das instituições, mostrando ao mesmo uma imagem de respeito da diversidade pondo pessoas mapuche ao lado das autoridades em discursos políticos, inserindo o idioma mapuche (o mapuzungun) em edifícios estatais e textos escolares, pondo pessoas de origem mapuche em cargos políticos na “zona de conflito”, etc.

Paralelo a isto, uma política de intensa repressão foi desatada há anos contra as comunidades mapuche em pé de luta que não se dobram às imposições e ofertas estatais. Elas são atacadas desde o Estado com invasões contínuas, agressões a crianças, encarceramentos, assassinatos, torturas, fiscais especiais, perseguições, escutas telefônicas, uso de testemunhos encobertos, uso de informantes em troca de benefícios, polícias militarizadas, grupos paramilitares e toda uma gama de recursos próprios da guerra contra-insurgente à serviç ;o do Estado e do Capital.

3. Resgatando experiências de uma luta sem tréguas.

Apesar de todas estas ferramentas repressivas, o Estado não conseguiu frear a luta mapuche em suas expressões mais radicais, com as quais nos fraternizamos conhecendo as diferenças que nos separam com qualquer posição vitimista e etnocêntrica que não ponha atenção à existência de outras tendências em guerra contra o Estado e o Capital.

Uma vez assumidas certas distâncias, resgatamos o acionar permanente contra os interesses estatais e capitalistas; e, inclusive, apesar da repressão, este acionar contínuo se estende e se intensifica sobrepujando toda a política de guerra anti-subversiva desenrolada na área mapuche com centenas de homens e milhões de pesos gastos em recursos humanos e técnicos para a repressão.

Podemos obter várias aprendizagens para nós mesmos olhando a contínua luta radical mapuche, elementos que sem dúvida poderiam nos aportar na luta insurreta contra toda autoridade. Seu ritmo de guerra é já um exemplo a seguir, intensificando e diversificando o combate, por um lado contra o despojo de séculos ainda vigente, e por outro lado como resposta aos golpes repressivos.

Assim, por exemplo, em abril de 2016 enquanto o Estado, seus fiscais, polícias e agentes de inteligência ainda não paravam de celebrar e alardear após a detenção de um grupo de comuneiros acusadxs de participar no atentado incendiário onde morreram queimados dois latifundiários (2015), grupos de resistência mapuche realizaram diversos atentados incendiários que descolocaram o poder demostrando-lhe que o encarceramento não é sinônimo de derrota e que a luta segue e se intensifica.

Algo importante também a considerar é que esse contínuo acionar apesar das prisões e assassinatos de comuneiros mapuche, das invasões e contínuas perseguições a comunidades, inclusive da traição de mapuches que terminaram colaborando com o Estado, não tem necessariamente que ver com uma profissionalização militar mapuche – ainda que assim o poder o queira mostrar -. Pelo contrário, se trata de indivíduos e coletividades que com engenho e decisão tomam parte ativa na luta radical sem dar tréguas ao inimigo em uma guerra que começa no interior mesmo das comunidades em conflito que avançam na recuperação territorial e resistem às investidas policiais.

Essa atitude na luta, esse ritmo de guerra, são um exemplo para nós. Levar a guerra a todas partes desde nossa posição de contínua confrontação é algo sem dúvida temido pela autoridade. Quão fortes seríamos se mais companheirxs tivessem essa atitude de romper sua própria rotina e comodidade para passar a desatar a raiva contra a dominação, para devolver os golpes do inimigo e dar-lhe tudo na insurreição permanente contra o poder.

A experiência a temos perto, as vontades e a convicção dentro de nós.

Nos bosques, campos e cidades… A propagar a guerra contra a dominação!

> Texto publicado na revista Contra Toda Autoridad #4

contratodaautoridad.wordpress. com

Posted in Chile, Guerra Social, Luta Indígena, Luta pela Terra | Leave a comment