Com Lágrimas nos Olhos, com os Punhos Fechados. Tradução de algumas palavras após o assassinato do companheiro Angry (Sebastian Oversluij Seguel) por um guardiã bancário durante um assalto no Banco de Estado de Santiago do Chile.

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Nota de Cumplicidade:

A simples situação de estar vivo é estar num constante desafio com a morte. Há aqueles/as que ousam, a flertam, se esquivam de seus beijos e vivem com toda intensidade até o momento fatal de seu abraço profundo. Outros/as se resignam a apatia, a obediência e de igual maneira cedo ou tarde são envolvidos no profundo abraço da morte “vivendo” uma vida morna, de insonso sabores e ausente de utopias. Nas relações entre os seres (inimigos/as das imposições) o que um não quer dois não fazem, com a morte a linguagem é outra se ela quer ela vem e nos envolve quando a desafiamos, quando vivemos.

Sebastián Oversluij Seguel o “Angry” nosso companheiro que vivia do outro lado da cordilheira dos andes em Pudahuel, Santiago, Chile viveu em concordância com suas ideias de inspiração anárquica, irmanando ideia e ação, pensamento e prática. Uma busca de vibrante intensidade entendendo que são amplas as possibilidades as quais podemos nos valer para buscar vivenciar a anarquia, recuperar nossas vidas, combater o sistema de dominação e atacar esta sociedade carcerária, a propriedade privada, suas leis e códigos morais. Angry viveu e morreu combatendo esta sociedade e através deste fato nos irmanamos com este guerreiro que partiu. O queremos do fundo de nossos sentimentos/instintos indomáveis. Sabemos que uma pessoa somente morre quando ninguém mais toca em seu nome, ninguém mais recita suas poesias, canta suas canções de “Palabras en Conflicto”, ou não relembra mais no clarão de uma fogueira seus feitos, seu sorriso, suas façanhas. Desde de nossa parte não deixaremos Angry morrer. E é por isso que traduzimos estas reflexões de seus/suas companheiros/as próximos, palavras grifadas de transbordante amor e ódio nas quais nos identificamos fervilhando nosso sangue insubmisso.

 Sebastián Angry Presente !!! Jonny Cariqueo Presente !!! Punky Mauri Presente !!! Samuel Eggers Presente !!! Nicolás David Neira Presente !!! Carlo Giuliani Presente !!! Alexandro Grigoropolulos Presente !!! Hoje & Sempre Presente !!! Nossos mortos vivem em nossas ideias e sentimentos, em cada barricada, em cada incêndio, em cada ato insubmisso e anárquico destrutivo e construtivo … 

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Com Lágrimas nos Olhos, com os Punhos Fechados:

 “O silencioso andar insurrecto, os passos meticulosamente pensados, detalhados, é a voz da coerência, de enfrentar o mundo da violência cotidiana e sistematizada, e nos lançarmos na deliciosa ideia da liberdade. Conversações clandestinas que culminam na preparação dos fatos. Não há tempo para pausas, é a urgência de ser livres a que nos empurra tomar pouco e arriscar tudo. Faltam poucos minutos para fazer-lhes saber que sempre estivemos aqui debaixo de seus narizes, minhas mãos suam, o frio do metal que cuspiremos nosso ódio está disposto, bem preparado, oculto, sempre oculto. Tudo deve ser uma surpresa para eles/as, os/as eternos/as defensores/as da ordem burguesa, por nossa parte tudo é acordo e organização. Nossas roupas se acomodam ao lugar e a hora, nada é casual, o nervosismo próprio de colocar-se cara a cara com inimigo e não saber se esta vez sairemos honrosamente. É o caminho que decidimos levar fazem já vários anos, construindo grosseiramente a pulso. O tempo parece estar morto, tudo se vê asquerosamente tranquilo. Repasso o combinado, tu lá, eu aqui, nossos bolsos vazios, preparados para serem recheados de dinheiro, nunca será de nossa propriedade o que hoje viemos a subtrair do fluxo mercantil de uma vida morta, vivemos por uma ideia de liberdade que não abandona. Uma vez mais lhes faremos saber que sempre estivemos aqui. É hora de entrar !”

“Uma barraca cor verde oliva impede ver o interior da sucursal do Banco Estado localizada na avenida La Estrella, em Pudahuel. Os impactos de bala que atravessaram as janelas e uma arma de guerra descansando no piso dão a fotografia do violento roubo que ontem afetou o recinto bancário.”

Esta era a forma como alguns de nós nos tomamos conhecimento dos dolorosos detalhes da ação que protagonizaste na quarta-feira 11 de dezembro de 2013, quando junto com outras pessoas, te dispuseste a recuperar parte da mercadoria roubada pelos ricos/as e poderosos/as deste país. E é que a voracidade da guerra te levou a mais de um projeto. Entendeste a coerência entre o dizer e o fazer, e soubeste combater as condições paupérrimas com as que se levantam estes sonhos. O roubo, a expropriação, não somente o dinheiro, senão também do tempo de trabalho assalariado que recuperamos é o que os chama a utilizar uma das ferramentas mais manipuladas pelos rebeldes da história. Compartilhamos tua decisão: Há que contribuir na luta, e entregaste o melhor de ti.

Aquelas esperanças que almejaste acreditaram vê-las sepultadas junto com teu corpo crivado debaixo das balas mercenárias de um miserável peão do Estado/Capital, porém se equivocaram em uma só coisa: Nossas ideias de liberdade não morrem. Nos irmanamos com cada forma de propaganda que utilizaste, valorizamos tua entrega total e por completo, e isto é o que hoje reivindicamos. Sebastián Oversluij Seguel morreu de pé, lutando, feliz, combatendo as misérias deste mundo, assaltando um centro de acumulação de riquezas, e nós, a pesar da profunda dor que sentimos com tua partida, nos alegramos de haver tido a felicidade de conhecer-te em vida, de haver cruzado caminhos e compartilhado sorrisos.

Hoje podemos ver todo aparato do Estado. A imprensa sempre servil ao regime dos/as poderosos/as, junto com os policiais e promotores se dão tapinhas nas costas, felicitando-se mutuamente pelo bom trabalho, lançando grosseiras declarações com as que somente tentam esmagar o entorno próximo ao companheiro. A caçada se desatou, invadindo casas, instigando companheiros/as, e buscando pessoas. Por tanto o momento compele a entrega máxima de vontade e compromisso, ação e coerência.

Saudamos a vida combatente de Sebastián, sua entrega desinteressada, e sua luta permanente, que muitos/as poderão comentar (para bem ou para mal, já pouco importa), porém poucos/as se atreveram a caminhar. Saudamos também a seus próximos que compreendem que parte do caminho insurrecto é, paradoxalmente, morrer lutando. Reivindicaremos de agora em diante teus passos perigosamente livres.

Pelos/as caídos/as de ontem, de hoje. Pelos/as que virão.

Guerra ao Estado/Capital!

Viva a propagando pelo fato!

Sebastián Oversluij: Presente!

 Esquadrão InsurrectoVerdenegro, Autos para Barrikadas, Célula Anticlerical Hortensia Quinio, Circulo Iconoclasta Michele Angiolillo, Núcleos Antagônicos da Nova Guerrilha Urbana, Anónimxs pela Destruição, Amigxs da Pólvora, Fração Heterogênea de Weichafes Libertários, Célula Antiautoritária Insurrecional Panagiotis Argyrou-FAI/FRI, Célula larga vida a Ilya Romanov, Conselho Guerrilheiro Urbano Insurrecional-Claudio Lavazza Lanza Pankfletos.

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Chile: Quiseram deter teu germe porém irrompeste no escombro para alcançar o sol         

“Nego o direito a julgar-me a todos aqueles que não entendem a voz de meu anseio, o uivo de minhas necessidades, a motivação de meu espirito, a dor de minha mente, a emoção de minhas idéias e a angústia de meu pensamento. Porém somente eu entendo tudo isto. Querem me julgar? Bem, faça! Porém nunca poderá julgar meu verdadeiro ser! Em seu lugar vai julgar o “eu” que tu mesmo inventou. Quando crer que me tenha entre tuas mãos para esmagar-me, eu estarei no alto, rindo na distância.”

Angry…

Durante a manhã de 11 de dezembro o companheiro e irmão antiautoritário Sebastián Oversluij Seguel é assassinado por Wilson Vera, um bastardo guarda de segurança de uma agência do Banco Estado localizada no município de Pudahuel, região metropolitana de Santiago.

Isto depois da tentativa de assalto evitado pelo miserável guarda do poder que protegeu com sua vida os interesses dos/as ricos/as donos do país e do mundo, disparando-lhe 5 balaços no corpo, dois deles alojando-se em sua cabeça. Dois companheiros foram detidos nas proximidades do lugar, Hermes González e Alfonso Alvial, quem hoje se encontram enclausurados na Seção de Máxima Segurança da Cárcere de Alta Segurança (CAS) em prisão preventiva por sua suposta colaboração.

O ANGRY…

Quando cai um dos nossos, as emoções são difíceis de expressar. Por isso também, escrever algo de imediato é algo que é necessário, porém custa … E como custa! Por que a dor nos invade, a angústia corrói e as opções são reagir e fazer frente a horrível experiência de se despedir de um irmão, com tudo que isto implica.

Não muitos/as o conheciam por seu nome, lhes chamávamos e o conhecíamos como “Pelao Angry” (autodenominação inspirada depois da leitura do livro “Angry Brigade”). Se autodefinia como antiautoritário niilista insurrecto, também como anti-social, ao estar contra a estrutura social que sustenta este sistema de vida. Um companheiro que levantou muitos projetos contra o poder e a dominação, cantava Rap em um grupo chamado Palavras em Conflito, suas letras apontavam desde a liberação animal até o chamado a sabotagem, o roubo, a auto-educação e a revolta.

Se via Angry em atividades de diversas instâncias de luta, marchas ou eventos sonoros solidários igualmente na rua, lutando contra o poder.

Nestes últimos anos se aproximou bastante da terra, esta era seu respiro e energia, cada contato com a natureza eram momentos de liberdade. Levantou hortas, destas que ninguém compreendia porque se distanciavam das estruturas dos livros, eram hortas caóticas e o melhor era que as plantas e alimentos cresciam belos. Se caracterizava por brincar em cada bosque e pedacinho verde que via … e é que era como um macaco!!! Sempre quis fazer uma casa na árvore, no mais alto, onde somente ele podia chegar graças as suas habilidades.

Um companheiro alegre, inquieto e sorridente. Ao mesmo tempo muito sensível, destes que deixam cheiro de nostalgia e que sempre estão aí com abraço caloroso, com uma palavra de alento ou com um simples olhar porém certeiro olhar cúmplice para levantar-te. Com a mais ativa, solidária e transparente vontade.

Deixou com nós a sua querida filha e família, deixou com nós suas letras, canções, poesias, pinturas, ilustrações, vídeos, adesivos, e muitas expressões do que acreditava e pensava. A criação sempre esteve ao seu lado, e isto é algo que nos recordará que segue aqui junto a todos/as os/as que lhe amamos e amaremos para sempre.

Não mentiremos, custa manter-se de pé, nos arrebataram um dos nossos. No entanto, nosso amor e convicção nos mantem. Agradecemos todos gestos solidários e de apoio, tanto dos companheiros/as sequestrados/as pelo Estado como daqueles anônimos/as que se fazem presentes com suas palavras e atos, múltiplos e diversos, inclusive com qualificativos berrantes que não compartilhamos, porém entendemos que a solidariedade não tem receitas, e todos estes gestos são lampejos que iluminam esta imensa penumbra.

O Pelao Angry se distanciou em corpo, porém nos acompanhará sempre, com seus raps, com sua arte, com suas plantas e suas sementes, com sua bela e indomável vontade criadora. Não te veremos amanhã companheiro, nem depois de amanhã, nem nunca mais por entre as ruas, mesmo que sabemos que estarás aí, te sentiremos e estarás aí … “segue nos recordando a vida companheiro”

Acompanhar a nosso irmão, a sua família e companheiros/as até sua incineração se desenrolou dentro de uma marcha cheia de faixas que difundiam as idéias que compartilhamos juntos/as, pichações nas paredes que propagam o acionar contra a dominação e o poder, gritos cheios de dor, força, raiva e solidariedade:

Companheiros/as Sebastián Oversluij Seguel, Jonny Cariqueo, Mauricio Morales, Claudia Lopez Sempre Presentes !!!

Por que um companheiro como ele e tantos/as outros/as caídos em combate alimentam a vontade de fazer a Guerra a Sociedade.

Companheiro Sebastián Oversluij Seguel Presente !!!

Companheiros Alfonso Alvial e Hermes Gonzáles de volta as Ruas !!!

Contra Toda Autoridade: Guerra a Sociedade !!!

 

* Na continuação uma engenhosa canção contra o cárcere do companheiro Sebastián, Angry, desde “Palabras en Conflicto”

-Prisionero- https://www.youtube.com/watch?v=45qv5dPOn5Q

“Entregues a guerra sem parar, disparar, boicotar, o risco sempre estará. Anonimos dando o passo a revolta!”

“… Poderemos tirá-los a rua, observa bem, proponha, engenhe um plano junto com teu grupo de afinidade claro esta detrás das grades nossos compas já não podem mais”

Discos do companheiro, desde Palabras en Conflicto

palaenconfl

Hip Hop en Guerra

Guerra a la Sociedad

       

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