Chile Carta da família Vergara Toledo ante a prisão de Tamara Sol Vergara

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Queridas amigas e companheiras: Queridos amigos e companheiros: Nossa amada Tamara Sol está encarcerada. Com a rapidez de um raio vingador, como sempre ocorre quando se trata de condenar a um pobre ou a um subversivo, uma juíza do sistema, Paola Robinovich, considera condená-la a dez anos e um dia ou a prisão perpetua, sob acusação de “roubo qualificado” (a figura jurídica mais dura do sistema penal chileno), alegando que Tamara Sol é um perigo para a sociedade. Sociedade construída tão ordenadamente sobre a aberrante desigualdade entre uns poucos imensamente ricos e os muitos imensamente pobres; uma sociedade militarizada com centenas de policiais em suas ruas e sobretudo na periferia, atacando a juventude dos povoados, com autorização para golpear, mentir, fazer montagens, prender, revistar casas, assassinar, espiar, fotografar… uma sociedade que é um “grande mercado”, uma sociedade orgulhosa do individualismo que tem criado, orgulhosa da mediocridade que tem criado, uma sociedade onde os meios de comunicação transmitem só espetáculos ou crimes passionais… A juíza, defendendo esta sociedade, ditou que Tamara Sol deve cumprir o tempo de investigação (que em princípio é de 60 dias) na prisão de San Miguel e em um módulo de alta segurança. Neste módulo de castigo só têm 1/2 hora de pátio… ou seja, está todos os dias encerradas. Esta rapidez em ditar sentença dos juízes é completamente contrária quando se trata de condenar a uniformizados, que apesar de assassinar e abusar de seu poder com os jovens e civis da população, vivem tranquilamente em suas casas. Pelo assassinato de Eduardo e Rafael, nossos filhos, tivemos que esperar mais de vinte anos para que a justiça se pronunciasse e sua sentença foi muito leve – só 7 anos por assassinar duas pessoas e presos sem nenhum meio de comunicação presente, sem mostrar seus rostos, sem esposas em suas mãos e enviados ao hotel 5 estrelas de Punta Peuco. Tampouco se vê este espirito alado da parte dos juízes quando se trata de condenar a ladrões de colarinho branco e gravata, onde também corre dinheiro por baixo e tudo se suaviza, tudo fica pa’callao. Queremos contar-lhes que Tamara Sol está relativamente bem (em sua condição de prisioneira). Seu espirito está firme e alto, é uma mulher digna e valente que nos têm questionado, a sua família mais direta, que somos uns covardes, que nunca daremos o passo de sairmos deste sistema maldito, que nos conformamos com migalhas, que nunca vai ser “o momento” para nós, nem teremos os “meios suficientes”, que marcamos o passo e de repente alguns tapas, mas nada que rompa com esta rotina mortal na qual estamos metidos. Nós estamos tremendamente sofridos porque é nossa menina, a quem amamos profundamente, a que está detida. Estamos orgulhosos, também, porque é já uma mulher e tem demonstrado uma tremenda valentia em sua vida. Uma mulher que nos instiga profundamente a não nos deixarmos acuar neste sistema, acomodando nossas vidas a seus ditames, acostumando-nos ao assassinato de companheiros, ao encarceramento dos jovens lutadores, ao roubo permanente que nos fazem como povo em todos os âmbitos, desde o roubo em nosso cotidiano, até o roubo de nossa terra, de nosso mar, de nossas riquezas, de nossas árvores. Necessitamos força, companheiras, companheiros, necessitamos sua amizade sincera e desinteressada, como sempre o têm feito. Nosso caminho já está traçado e não podemos ficar tranquilos a esperar que outros façam o que nós devemos seguir fazendo… AMAR PROFUNDAMENTE A IDEIA DE UMA SOCIEDADE LIVRE E FRATERNA E CONSTRUÍ-LA COM PEQUENAS E GRANDES AÇÕES, NÃO SÓ NO DISCURSO, COM TODAS AS FORMAS DE LUTA E EM TODOS OS ÂMBITOS DE NOSSA EXISTÊNCIA. Tamara Sol, filha, neta, irmã, te amamos com todas as nossas forças. Tamara Sol, companheira lutadora, te admiramos por sua valentia. Estamos contigo. Tamara Sol, te acompanharemos pra sempre, não estarás nunca só. Tamara Sol, “o céu se reflete no mar e só então olha para a lua”. Paciência, paciência, paciência, amor. Queremos dar graças a todas e todos os que têm vindo em nosso lar, os que imediatamente nos têm demonstrado seu carinho, os que têm se solidarizado trazendo coisas que Tamara Sol necessita ali no cárcere. Agradecemos às mulheres que a acolheram neste lúgubre recinto com carinho. Também agradecemos aos que não tem estado conosco, demonstrando-nos com sua atitude que não estão de acordo com Tamara Sol e isso nos faz ver bem claro com quem contamos de agora em diante. Villa Francia, 3 de fevereiro de 2014. Escrito por Ana Vergara Toledo; Luisa Toledo Sepúlveda; Manuel Vergara Meza

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