Chile: Jornada de agitação e solidariedade pelos companheiros Freddy, Marcelo e Juan.

caso-security-609x1024

Retiramos de Viva La Anarquia e traduzimos:

Um assalto, um policial morto e as campanhas de extermínio

“As vezes sai caro defender aos ricos”- Alexander M. Jacob.

No dia 18 de outubro de 2007 se produz um assalto a uma entidade bancária localizada em pleno centro de Santiago, o banco Security. Os Carabineiros[1] fecham o perímetro da sucursal com o objetivo de encontrarem os participantes do feito. Assim na revista a uma motocicleta se dá um enfrentamento armado e Luis Moyano, cabo dos Carabineiros, cai morto no lugar. Outro funcionário policial resulta ferido.

O centro de Santiago se convulsiona e a caça se desata em vingança. O Departamento de Inteligência dos Carabineiros faz um rápido balanço da orquestração tática do assalto, caracterização dos participantes, tipo de armamento e retirada. Após uma rápida análise lançam a sentença: os autores são ex-membros de um grupo subversivo.

Com uma poderosa campanha midiática o caso se difunde rapidamente, prestando declaração diante da mídia, tanto a viúva como os filhos do cabo Moyano. As honras oficiais envolvem a figura do carabineiro e as ameaças contra os participantes no assalto vão se difundindo sem maior dissimulação.

Em cerca de um mês é detido um dos presuntos participantes no assalto. Três dias depois da detenção entrega os nomes e fotografias dos supostos membros do grupo. Este testemunho, construído desde, para e pelos entramados do poder, é bendito com uma validez total, transformando-se em prova irrefutável diante a sociedade.

Os rostos de Freddy Fuentevilla, Juan Aliste, Marcelo Villaroel e Carlos Gutiérrez Quiduleo são expostos e analizados pela mídia, se fala de peritos biométricos e análises criminológicos de maior nível.

A polícia faz circular telefones aonde chamar para entregar informação, se convoca a população a delatar qualquer movimento ou aparição dos já declarados culpados. Se lançam ameaças pelos meios de comunicação e a mensagem entre linhas é clara: os querem mortos.

Se realizam batidas nos domicílios dos companheiros, dos familiares e companheiras. Mas nem rastro deles. O cerco policial se extende mas não consegue aprisioná-los. A pauta lançada pelo poder fica estabelecida, os companheiros não sobreviverão se são encontrados.

Mandados de prisão; Para quem vão?

“Escolhemos o peso de nossas escolhas e não temos a intenção de amolecer nossas decisões”- Conspiração das Células de Fogo

A lista de nomes e fotografias mostradas pelas vozes do poder como participantes do assalto ao banco, busca fortalecer o imaginário de “deliquente ex-subversivo”. Eliminar qualquer motivação de luta, isolar-los politicamente de entornos de combate e posicioná-los marginalizados e sem continuidade histórica alguma.

Mas os companheiros não só tem passado de luta, mas também presente e por certo futuro. Os 4 apontados como participantes no assalto ao banco, são ativos rebeldes que mantiveram o combate e enfrentamento durante a transição democrática, sem fazser distinção entre a mudança de roupas- de uniformes a caríssimos ternos- na hora de exercer a autoridade e administrar o Estado/Cárcere/Capital.

Com suas particularidades e subjetividades, cada companheiro colabora a um front da luta, articulando-se assim distintas realidades. Como eles mesmos se definem:

-Freddy Fuentevilla: ex militante do MIR, ativo anticapitalista autônomo

-Carlos Gutierrez Quiduleo: ex militante lautarino, ativo weichafe

-Juan Aliste: ex lautarino, ativo anticapitalista subversivo.

-Marcelo Villaroel: ex lautarino, subversivo autônomo e libertário

Presentes em mil iniciativas, os companheiros assumem a clandestinidade diante as ameaças de morte lançadas pelas vozes do poder e uma caça de bruxas desencadeada pelas forças de segurança que orquestravam o cenário perfeito para buscar sua aniquilação física e legitimar o extermínio de revolucionários.

Freddy e Marcelo são detidos na Argentina no dia 15 de março de 2008, sendo processados e encarcerados por porte de arma de fogo, conhecendo as prisões argentinas. Submetidos a regimes de castigo e isolamentos demenciais, com longos períodos de clausura revertidos com a contínua resistência manifestada no combate cotidiano e milimétrico à loucura de viver sem luz natural, nem artificial, nem pátio onde caminhar… Gerando a figura do isolamento dentro do isolamento por razões de segurança, que é o que posteriormente continua no Chile, mas validado no regime de segurança máxima, invisibilizado dentro do que se conhece como Cárcere de Alta Segurança[2].

Quando os companheiros cumprem a metade da pena são expulsos ao Chile. Por sua parte Juan é detido também na Argentina, no dia 9 de julho de 2010 e é expulso imediatamente, deixado na bandeja diante a justiça chilena.

Carlos consegue manter-se foragido até ser detido no território mapuche no dia 28 de novembro de 2013.

Cada companheiro se mantém firme nas opções de vida escolhidas, nas decisões de combate fortalecidas pelos anos e traçadas pelas inumeráveis vivências da dureza da repressão mas também da alegria e do amor na revolta. Rechaçar os valores do poder e a servil monotonia não é uma decisão passageira ou momentânea, mas uma imquebrável continuidade.

Labirintos judiciais de um aniquilamento burocrático.

“Minha detenção revela os temores ao fantasma da resistência. Minha detenção resulta da vontade de aniquilar todo rastro de alternativa radical à verborréia hemiplégica e as comédias de ruptura com o sistema e seus cúmplices. Apesar de tudo, a luta continua.”

-Jean Marc Roullian-

A colaboração dos Estados Chileno-Argentino para conseguir a captura de Freddy, Marcelo e Juan, traz a tona novamente o plano anti-subversivo conhecido como Operação Condor, implementado pelas ditaduras na América Latina.

Assim então, com a chegada de Freddy e Marcelo às cadeias chilenas o processo judicial se inicia, esta vez, colocado na justiça militar a cargo do funesto promotor Reveco, reconhecido comparsa de torturadores e lichamentos jurídicos na ditadura. Uma vez detido Juana e expulso ao Chile, o companheiro é somado a mesma investigação que Freddy e Marcelo, todos sob fiscalia militar.

No âmbito carcerário Juan, Freddy e Marcelo permanecem separados nos 3 módulos com que conta a Cárcere de Alta Segurança, as restrições por parte da administração carcerária são contínuas, com incessantes batidas nas celas, assim como a perseguição a suas famílias e companheirxs.

No ano de 2010, mediante mobilizações e greves de fome de prisioneiros políticos mapuche se consegue modificar a jurisdição para que nenhum civil seja julgado por tribunais militares. Este câmbio à arquitetura do poder fez com que o processo do Caso Security seja levado do circo judicial ao civil, com novos prazos, promotores e disposições

Para o poder e o domínio, o processo judicial era um cenário não contemplado, porque em estrito rigor se perseguia e incitava ao aniquilamento físico dos companheiros, até esse momento foragidos.

Após serem detidos, as balas policiais ficavam intactas nas recâmaras das pistolas, prontas para serem descarregadas contra outros revolucionários, neste caso não foram disparadas para vingar a seu “companheiro de armas”, o cabo Moyano… então o assunto se punha embaraçozo. Se não os exterminavam com a costumeira brutalidade do aniquilamento físico, poi teriam que serem golpeados sob quilos de pastas investigativas e absurdos judiciais, sepultados sob muralhas de burocracia legal e asfixiados com procedimentos sem sentido.

Neste cenário se desenvolve todo um entramado legal/jurídico que contínuamente cruza seus prórpios limites e passa por cima de suas normas. Juan, Marcelo e Freddy cumpriram a prisão preventiva mais longa do Chile sob a nova reforma processual penal, com mais de 4 anos nas cadeias sem receber pena alguma. Por sua parte a promotoria conseguiu anular e realizar em duas ocasiões a “preparação de julgamento” e extender limites até o infinito.

Aqui não falamos de prazos justos ou respeito a tratados, falamos e evidenciamos a brutalidade do domínio e a necessidade que tem de afogar no esquecimento aos companheiros, trancados nas armadilhas e no labirinta da pantomima judicial.

Em meio deste processo, no dia 28 de novembro de 2013, o companheiro Carlos Gutierrez Quiduleo, até o momemento clandestino, é detido pelas forças repressivas. Após ser capturado é levado a seção de segurança máxima com um regime de isolamento. Seu processo judicial fica independente e em paralelo ao de Juan, Marcelo e Freddy.  Assim o companheiro Carlos permanece sob investigação em prisão preventiva ainda sem ter data para seu julgamento.

Uma vez finalizada todas as artimanhas para a realização do grande teatro, e estabelecidas todas as peças para impor a verdade aos poderosos, se fixa a data onde se pretende sacrificar o altar da democracia aos rebeldes.

No dia 25 de Março, 3 juízes, 3 miseráveis decidirão sobre a vida de nossos companheiros, botando-se como semi-deuses para quantificar a porção de vida que terão que purgar os prisioneiros.

A armadilha judicial se extende até limites grosseiro, no caso de não ser condenado pelos fatos que hoje os acusam, os companheiros que se encontravam cumprindo penas com benefícios (por sua participação em ações de guerrilha urbana durante os anos 90-Marcelo e Juan-) ficarão ao caprichoso arbítrio da administração carcerária-jurídica, quem decidirão se terão que permanecer no cárcere cumprindo a pena anterior ou retomariam ao regime de befícios que tinham em 2007.

Ar armas da democracia transformadas desta vez em papel e sentença buscam ser executadas segundo as petições dos perseguidores.Desta forma a promotoria solicita:

-Para o companheiro Juan Aliste: prisão perpétua qualificada + 20 anos de prísão, acusado de 3 assaltos bancários, a morte de Moyana e o suposto homicídio frustrado a outro policial, durante os enfrentamento nas imediações do banco Security.

-Para o companheiro Freddy Fuentevilla a acusação e de perpétua simples + 15 anos de prisão pelo homicídio de Moyano, o enfrentamento armado com outro policial e 2 assaltos bancários.

Por sua parte ao companheiro Marcelo Villaroel, os perseguidores pretendem condená-lo a 18 anos de prisão após indicá-lo como autor de 2 assaltos bancários.

Nos altares da Inquisição democrática…

“…Porque a Anarquia a temos dentro de nossas cabeças e vocês nunca serão capazes de processá-la, não importa quanto cimento nos joguem em cima para sepultar-nos, não importa quantas prisões construam para meter-nos dentro, a quantos anos nos condenem e quantas leis anti-terroristas decretarão para serem ainda mais estritos em suas atuações teatrais… Nossa anarquia fugirá cada vez”

Giannis Mihailidis e Nikos Romanos

Os julgamentos são ambientes cumes do monopólio da violência por parte do Estado, onde a inquisição democrática busca aplicar a sanção exemplificadora. Mas no caso de sujeitos em aberta rebeldia se agudiza e amplifica o papel da própria justiça, transformando o ambiente em uma tribuna de linchamento político.

Ainda que a Promotoria se empenhe em autoproclamar-se limpa e ascéptica, este é e será um processo que deve defender a ordem dos ricos, este é um julgamento político. Por ele as provas e acusações escapam dos meros ocorridos em 2007, levantando-se contra os companheiros como sujeitos subversivos.

Com isto não estamos pedindo igualdade perante a lei ou “julgamentos justos”, se não que mas bém buscamos desvelar e evidenciar como funciona a estrutura do domínio para se colocar sobre quem se opõe e enfrenta de maneira cotidiana e radical.

Assim então, a contar do 25 de março, promotores, juízes e advogadas a serviço do poder capricharão na estética e na vaidade, a Gendarmeria[3] exagerará até o ridículo as disposições do teatro da segurança e a viúva do cabo Moyano armará quantos pontos de mídia que encontre.

Todos defenderão sua posição de servidores do domínio e não temos dúvida da atitude de nossos companheiros: cabeça alta, sem arrependimento de quem decidiram ser, com tremendas forças para não se renderem.

É necessário compreender o momento chave que significa um julgamento, tanto para o poder que se dá a arrogância de julgar e condenar aos revolucionários, como a sua vez o desafio e possibilidade para nós, seus eternos inimigxs, de elevar a conflitividade, levando-a a um ponto de não retorno. Nossa é a resposta solidária, com firmeza e no pulsar exato da guerra.

O objetivo transcende aos teatros jurídicos, inclusive além de condenar por um fato pontual a uma pessoa, busca cortar e demolir o espírito de enfrentamento à norma, à regra, ao poder mesmo, segundo seja o caso.

Assim então após o cenário legal, se pretende sepultar ao/a impultadx, simplesmente apagá-lx, anulado, atrás do peso de uma pena e transformado em um mero número dentro da prisão, que o mundo além das grades a/o esqueça e que x prisioneirx assuma obediente seu novo papel pela sociedade determinado: condenadx

Nossos companheiros não sucumbem resignados ao domínio e mantiveram ao longo de sua vida a opção de luta permanente. Transcendendo e transpassando cenários pontuais, dando-lhe assim uma continuidade de luta à ruptura com a ordem imposta.

Evidenciando com isso que o poder poderá cercar-nos, trancar-nos, elevar os muros e disparar sanções e vinganças, mas nossa será a vontade de não enfrentar desde uma perspectiva de vítima cada cenário pelo poder disposto. Nossas mãos ativas sempre buscarão destruir as grades que pretendem nos aprisionar…

Não delegaremos nas disposições e rítmos do estado nossa atitude de guerra. A luta é uma opção de vida até o final, sem espaço para os tempos mortos.

No cenário do Legal, os companheiros buscaram obstaculizar a “verdade” dospoderosos mediante uma defesa jurídica, mas sem fazer suas nem internalizar as categorias da linguagem imposta: inocentes, vítimas ou culpados.

A estratégia de defesa não se baseia unicamente em evitar e entorpecer a lapidação e o sequestro por toda a vida que pende sobre eles, sabotando as engrenagens das verdades judiciais, se não que ao uníssono projeta tanto a luta na rua como uma vida de combate contra a dominação.

Hoje mais que nunca…Palavra e Ação

“Entendemos a solidariedade como a constante colocação em prática de nossas idéias anarquistas, em todas suas formas, que fazem entender o inimigo que aqui nada termina, que tudo segue na prisão ou na rua. Desde onde se esteja: nem um minuto de silêncio e uma vida de combate”

-Mônica Caballero, Francisco Solar-

Diante do iminente julgamento contra nossos companheiros, fazemos um fervente chamado a  lutar,

elevando a voz da guerra, convocando uma vez mais a uma Jornada de Agitação Solidária Internacionalista do 14 ao 25 de março de 2014.

Assumindo sempre um papel ativo dentro da guerra social, incitamos às diferentes individualidades a manifestar de maneira concreta o apoio e a solidariedade com os companheiros a espera de julgamento. Entendendo que a mensagem solidária será recebida de maneira certeira não só pelos companheiros, mas também pelos poderosos que os querem ver sós e derrotados.

A solidariedade ofensiva faz frente ao teatro da justiça e leva o conflito desde os escritórios estatatais à rua mesma, onde queremos nossos companheiros vivos, livres e rebeldes.

Não seremos espectadores do linchamento de nossos companheiros, nem aceitaremos submissamente as penas que possam emanar como sanção exemplificadora, nosso chamado é a qwue ninguém deixe de participar, de ativar pela Libertação Total.

A solidariedade, a força comum, o apoio, transpassa os muros, burla as fronteiras e une os mundos com a linguagem comum da guerra social. Que um/uma guerreirx não esteja só nos salões da justiça burguesa, só depende de quanto sejamos capazes de criar. Todas as ações contam e todas colaboram na luta contra o poder, quando levam o gérmem solidário da liberdade.

O chamado e a atuar, gerando uma ação solidária multi-forme, sem líderes nem dirigentes, onde cada um/uma colabore desde o cenário onde se encontre, cada gesto importa. Assim a ação solidária gera, extende e aprofunda as redes de cumplicidade, potentes armas e ferramentas para fazer frente ao Poder.

Este chamado é uma convocatória aberta, para que cada uma/um se manifeste atravéz da ação, atravéz da informação descentralizada, com práticas autônomas de expressão de rebeldia.

Não deixaremos sós a nossos companheiros, por mais rajadas de ameaças que o poder dispare, nossa é a convicção de luta, sem tréguas, até o final, até destruir o último bilar da sociedade carcerária.

Contra toda forma de poder, contra toda forma de dominação… na rua, prisioneirxs ou em fuga, sempre estaremos em permanente atitude de combate.

“As fronteiras e os idiomas diferente são obstáculos que vamos derrubar para nos encontrar uma ao lado dx outrx, e para nos levantarmos juntxs contra os mandatos e ordens deste sistema e cuspir com desprezo a cada um dos fiéis à lei e opções de vida que nos propõe”-

Conspiração das Células de Fogo

Solidariedade e Ação do 14 ao 25 de Março de 2014, até ver Freddy, Marcelo, Juan e Carlos na rua, caminhando livres com todxs xs que lutam.

afiche

Convocam e Solidarizam:

-Familiares e companheirxs dos processados pelo Caso Security

– Coletivo anti-carcerário Vôo de Justiiça

-Núcleo anti-autoritário de agitação e propaganda Sem Fronteiras Nem Bandeiras e afins

-81 razões para lutar
-Individualidades a fins Santiago- Valparaíso- Buenos Aires- Neuquén- Barcelon

-Viva la Anarquia

-Rojoscuro

-Hommodolars

-Publicacão Refractario

-Cruz Negra Anarquista México

-RadioAzione

-Solidarixs em Guerra contra o Poder

– Revista Infierno

– Voz Como Arma

ENQUANTO EXISTIR MISÉRIA HAVERÁ REBELIÃO!!!!!!!


                1 Equivalente a polícia Militar no Chille

                2  CAS- Prisão de segurança Máxima localizada em Santiago, criada nos anos 90 com o objetivo de manter encarcerados militantes de organizações subversivas.

     3 Instituição militar que no Chile cumpre o papel de carcereiro.

 

This entry was posted in Caso Security, Chile, Eventos, Guerra Social, Memoria Combativa, presxs, Solidariedade. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *