{"id":539,"date":"2013-10-21T21:43:19","date_gmt":"2013-10-21T19:43:19","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=539"},"modified":"2013-10-21T21:43:19","modified_gmt":"2013-10-21T19:43:19","slug":"rs-o-que-matou-samuel-eggers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=539","title":{"rendered":"RS: O que matou Samuel Eggers?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/1378436_591907887536152_1076829209_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-541\" alt=\"1378436_591907887536152_1076829209_n\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/1378436_591907887536152_1076829209_n-212x300.jpg\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/1378436_591907887536152_1076829209_n-212x300.jpg 212w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/1378436_591907887536152_1076829209_n.jpg 679w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Retirado de Contra-Info<\/em><\/p>\n<p><strong>Reflex\u00f5es sobre o assassinato de um anarquista<\/strong><\/p>\n<p>No dia 13 de setembro de 2013, aos 24 anos, Samuel Eggers foi assassinado na cidade de Caxias do Sul. Desde ent\u00e3o a m\u00eddia e a pol\u00edcia vem inventando hist\u00f3rias fantasiosas sobre sua morte, buscando enquadr\u00e1-la em um latroc\u00ednio qualquer com mentiras. Muitas s\u00e3o as evidencias de que s\u00e3o hist\u00f3rias falsas. Tudo nos leva a crer que Samuel morreu pelas m\u00e3os da brigada militar do estado do Rio Grande do Sul, ou por algum assassino vinculado \u00e0 elite local, simpatizante de ideias fascistas, protegido e salvaguardado por esta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo leva a crer que Samuel morreu por se declarar abertamente anarquista, mesmo em um ambiente acad\u00eamico, durante um congresso cient\u00edfico de psicologia. Envolvido no movimento estudantil desde sua gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Samuel foi pouco a pouco se identificando com causas ambientais e sociais, tendo cada vez mais como norte os ideais de liberdade, mutualidade, igualdade e autonomia pr\u00f3prios da filosofia libert\u00e1ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 cinco meses atr\u00e1s, mais de trinta manifestantes que protegiam centenas de \u00e1rvores na orla do Gua\u00edba, junto a usina, foram violentamente abordados no meio da noite pela tropa de choque, sequestrados e humilhados, com autoriza\u00e7\u00e3o do governador e do prefeito, para que arrancassem as \u00e1rvores com enormes retroescavadeiras. Samuel estava entre estas pessoas que protegiam as \u00e1rvores, este \u00e9 seu \u201cantecedente\u201d para essa m\u00eddia porca e suas mentiras. Ele tinha como costume compartilhar com amigos e leitores, suas v\u00e1rias reflex\u00f5es e leituras atrav\u00e9s de v\u00e1rios blogs, entre eles, o <a href=\"http:\/\/tempoderebeldia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Tempo de Rebeldia<\/a>. Foi por meio deste blog que denunciou os abusos de autoridade e a reconheceu a verdadeira fun\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 poss\u00edvel que algu\u00e9m que tenha tomado um \u201catraque\u201d da pol\u00edcia militar, daqueles que apontam uma espingarda calibre 12 na sua cara, e ainda acredite que tal ato foi fruto do despreparo de um policial individual. Que foi um erro num sistema que, de maneira geral, funciona bem. Mas, quando se tem o privil\u00e9gio de ser atacado por uma opera\u00e7\u00e3o deste porte, passa-se a ver a pol\u00edcia com outros olhos: como um sistema cruel que corrompe boas pessoas. Em \u00faltima an\u00e1lise, a fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 manter a popula\u00e7\u00e3o segura, mas mant\u00ea-la com medo e obediente. Por isso n\u00f3s, baderneiros acusados de desacato \u00e0 autoridade, fomos t\u00e3o humilhados \u2013 em uma sociedade baseada em obedi\u00eancia e sil\u00eancio, n\u00e3o existe crime maior do que falar a pr\u00f3pria opini\u00e3o e defend\u00ea-la de forma minimamente efetiva.\u201d em Notas sobre o Terror do Estado (parte 2) \u2013 10 de junho.<\/p>\n<p>Com a repress\u00e3o vivenciada em decorr\u00eancia do corte das \u00e1rvores, e mais tarde, diante da rea\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia frente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de junho em Porto Alegre, a compreens\u00e3o de Samuel sobre o estado em uma sociedade autorit\u00e1ria, bem como o funcionamento do aparato repressor se consolidou.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 por acaso, equ\u00edvoco ou erro t\u00e1tico: essa \u00e9, e sempre foi, a estrat\u00e9gia da Brigada Militar. O objetivo dessa corpora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 proteger a popula\u00e7\u00e3o, mas mant\u00ea-la assustada e d\u00f3cil, com os indiv\u00edduos isolados entre si e f\u00e1ceis de capturar quando se tornam amea\u00e7adores demais. A pol\u00edcia militar n\u00e3o \u00e9 a guardi\u00e3 do nosso sono tranquilo, mas o ex\u00e9rcito que ocupa nossas cidades, e patrulha nossas ruas em busca de rebeldes. Seus soldados s\u00e3o doutrinados a acreditar que o que fazem \u00e9 pelo bem de todos, para livrar nossa sociedade desses vagabundos que ficam fumando crack por a\u00ed, roubando quem trabalha. Aqueles policiais que desceram o cacete, que jogaram bombas e prenderam inocentes provavelmente acreditam, do fundo da sua alma, que o que estavam fazendo ali era o melhor \u2013 a coisa certa. Na massa que se movia entre cartazes, bandeiras e gritos, os homens e mulheres de farda n\u00e3o viam nada al\u00e9m de vagabundos que mereciam apanhar por n\u00e3o se comportarem direito. Por isso foram t\u00e3o eficientes em seu trabalho, e t\u00e3o determinados em varrer o centro de Porto Alegre daquela corja.\u201d em Quando Porto Alegre anoiteceu laranja \u2013 25 de junho.<\/p>\n<p>Podemos n\u00e3o saber quem exatamente matou Samuel, mas sabemos o que matou. Foi morto pelo fato de ter ideias, ideais e pr\u00e1ticas libert\u00e1rias de contesta\u00e7\u00e3o. Samuel, que abertamente se autodeclarava anarquista, morreu gra\u00e7as \u00e0 irrespons\u00e1vel campanha midi\u00e1tica antianarquista do Grupo RBS atrav\u00e9s de seu jornal, a Zero Hora, que a todo custo buscou criar uma imagem distorcida do anarquismo e dos anarquistas. Tamb\u00e9m sua mem\u00f3ria foi v\u00edtima desta m\u00eddia. Depois de seu cruel assassinato, ele que era uma das pessoas mais tranquilas segundo quem o conhecia, \u00e9 descrito por reportagens como algu\u00e9m \u201cviolento\u201d por lutar kung-fu, um \u201cportador de antecedentes criminais\u201d. Para saber mais sobre seu crime, bastam suas palavras.<\/p>\n<p>\u201cEntrei para o grupo de pessoas que foram presas porque ousaram desafiar a tirania e combater a injusti\u00e7a. Finalmente, sinto-me um igual, n\u00e3o apenas diante de homens e mulheres como Gandhi, Emma Goldman e Thoreau, mas tamb\u00e9m daqueles camaradas que h\u00e1 muito tempo gritavam para que eu me somasse \u00e0 luta. Se queriam me assustar com amea\u00e7as, e fazer com que eu me recolhesse para dentro do meu mundo, fracassaram, pois hoje descobri que n\u00e3o quero viver numa \u201cdemocracia\u201d em que eu tenha que me calar e seguir as ordens dos meus superiores. Jurei que farei tudo que estiver ao meu alcance para tornar o mundo um lugar onde eu quero que meus filhos cres\u00e7am. Guardarei um lugar aqui pra ti, no dia em que perceberes o mesmo, e seguirei lutando enquanto voc\u00ea n\u00e3o acorda.\u201d em Notas sobre o Terror do Estado (Parte 1) \u2013 29 de maio.<\/p>\n<p>O que matou Samuel, alguns meses depois, foi seguir firme com esta inten\u00e7\u00e3o: desafiar a tirania e combater a injusti\u00e7a. Est\u00e1 cada vez mais claro que este tipo de inten\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada inaceit\u00e1vel para s\u00e1dicos e sociopatas, para os adoradores da ordem que escondem suas pervers\u00f5es atr\u00e1s de distintivos, verdades rasas e propaganda institucional.<\/p>\n<p>Mataram-no e buscaram esconder esta morte nos \u00edndices de latroc\u00ednio aceitaveis, na indiferen\u00e7a das estat\u00edsticas que ocultam os crimes e o terrorismo dos criminosos que se escondem atr\u00e1s do poder. Para iludir os vivos criaram uma hist\u00f3ria tao incoerente que constrange qualquer pessoa minimamente antenada. As incoer\u00eancias nas informa\u00e7\u00f5es contidas reportagens sobre a investiga\u00e7\u00e3o da morte de Samuel sao evidentes. Os acontecimentos nao batem, um ladrao que com uma arma no carro sai para assaltar de mao limpa, uma suposta rea\u00e7ao violenta de Samuel nao condiz com sua personalidade, um latroc\u00ednio em que nada \u00e9 levado. Dois jovens sao apontados como suspeitos. Teriam eles recebido para mat\u00e1-lo? Ou estariam sendo amea\u00e7ados empurrados de forma a assumir um crime que nao cometeram? Policiais civis e militares colaboram para esta farsa, e a m\u00eddia se esfor\u00e7a para torn\u00e1-la l\u00edcita.<\/p>\n<p>O mal que abateu Samuel poderia ter se lan\u00e7ado contra muitas outras pessoas, todxs aquelxs que defendem e se identificam publicamente com os ideais libert\u00e1rios. O que matou Samuel poderia nos ter matado a qualquer um. Entre n\u00f3s paira uma certa ingenuidade, a quem prefira acreditar que n\u00e3o se morre por ser anarquista, a quem prefira acreditar em \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d, \u201cdemocracia representativa\u201d, \u201cestado de direito\u201d e em outros contos de fada.<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, como muitas vezes antes, pessoas s\u00e3o mortas por se colocarem contra a tirania, jovens s\u00e3o mortos por abra\u00e7arem estes ideais. O mal que matou Samuel, \u00e9 o mesmo que matou tantos outros antes dele. Este mal fardado e engravatado, est\u00e1 no autoritarismo e na viol\u00eancia institucionalizada, na ignor\u00e2ncia premiada, no ex\u00e9rcito de s\u00e1dicos recrutados e amestrados para \u201cproteger e servir\u201d os interesses dos parasitas sociais a que chamamos de \u201celites\u201d, como se fossem seus.<\/p>\n<p>E se nos matam nas ruas o que devemos fazer? Devemos permanecer pac\u00edficos e deixar que nos martirizem? Nao \u00e9 a autodefesa um princ\u00edpio anarquista? Devemos nos esconder da tirania dos cleptocratas, esperando que por qualquer descuido nos encontrem, que se abatam sobre n\u00f3s e sobre as pessoas que amamos? Enquanto isso seguem aumentando seu ex\u00e9rcito de s\u00e1dicos, estao pelas ruas com armas em punhos, apoiados pelos pacifistas espectadores, caguetas e infiltrados infestam todos os atos p\u00fablicos e manifesta\u00e7\u00f5es organizadas, generais de dez estrelas fantasiam conspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como escreveu o poeta Maiak\u00f3vski<\/p>\n<p>Na primeira noite eles se aproximam<br \/>\ne roubam uma flor<br \/>\ndo nosso jardim.<br \/>\nE n\u00e3o dizemos nada.<br \/>\nNa segunda noite, j\u00e1 n\u00e3o se escondem;<br \/>\npisam as flores,<br \/>\nmatam nosso c\u00e3o,<br \/>\ne n\u00e3o dizemos nada.<br \/>\nAt\u00e9 que um dia,<br \/>\no mais fr\u00e1gil deles<br \/>\nentra sozinho em nossa casa,<br \/>\nrouba-nos a luz, e,<br \/>\nconhecendo nosso medo,<br \/>\narranca-nos a voz da garganta.<br \/>\nE j\u00e1 n\u00e3o podemos dizer nada.<\/p>\n<p>Antianarquismo \u00e9 o nome deste mal que precisa ser a todo custo combatido. O que aconteceu com Samuel Eggers \u00e9 algo a ser contado, recontado e conhecido. \u00c9 hora de gritar, \u00e9 hora de lutar, \u00e9 hora de n\u00e3o nos deixarmos tomar pelo medo. Sempre que um dos nossos \u00e9 morto lembrem-se das palavras de \u00c9mile Henry em seu julgamento, aos 22 anos em 1894, rotulado de terrorista e guilhotinado por lutar contra a tirania, pelo estado frances:<\/p>\n<p>\u201cEnforcados em Chicago, decapitados na Alemanha, estrangulados em Xerez, fuzilados em Barcelona, guilhotinados em Montbrison e em Paris, nossos mortos s\u00e3o muitos; mas voc\u00eas n\u00e3o foram capazes de destruir a Anarquia. Suas ra\u00edzes s\u00e3o profundas; brotam do \u00edntimo de uma sociedade podre que est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os; esta \u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o violenta contra a ordem estabelecida; e uma defensa das aspira\u00e7\u00f5es por igualdade e liberdade daqueles que se ergueram contra o autoritarismo vigente. Ela est\u00e1 em todos os lugares. Isso \u00e9 que a faz indom\u00e1vel, e por fim ela ir\u00e1 derrot\u00e1-los e assassin\u00e1-los.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/samuel-eggers.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"samuel-eggers\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2013\/10\/samuel-eggers-200x300.jpg\" width=\"200\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retirado de Contra-Info Reflex\u00f5es sobre o assassinato de um anarquista No dia 13 de setembro de 2013, aos 24 anos, Samuel Eggers foi assassinado na cidade de Caxias do Sul. 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