{"id":3200,"date":"2017-09-03T15:49:48","date_gmt":"2017-09-03T13:49:48","guid":{"rendered":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=3200"},"modified":"2017-09-03T15:51:37","modified_gmt":"2017-09-03T13:51:37","slug":"argentina-somos-bons-indios-quando-estamos-quietinhos-se-lutamos-somos-maus-e-violentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=3200","title":{"rendered":"[Argentina] \u201cSomos bons \u00edndios quando estamos quietinhos, se lutamos somos maus e violentos\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Retirado de ANA:<\/em><\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s a repress\u00e3o da comunidade mapuche em Lof Cushamen, h\u00e1 uma pessoa desaparecida. Trata-se de Santiago Maldonado. V\u00e1rias testemunhas indicam que na fuga, Santiago n\u00e3o atravessou o rio para o qual os outros escaparam, e foi capturado pela Gendarmeria [Pol\u00edcia Nacional]. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o seu paradeiro. Enquanto isso, Lonko Facundo Jones Huala ainda est\u00e1 na pris\u00e3o e em greve de fome. Isabel Huala, sua m\u00e3e, pediu o aparecimento de Maldonado e a liberdade de seu filho. Ela contou como foram as repress\u00f5es desta semana, se referiu \u00e0 demoniza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tradicional e descreveu o que aconteceu como Terrorismo de Estado.<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00a0<i><strong>La Retaguardia<\/strong><\/i><\/p>\n<p>Isabel Huala, falou com Fernando Tebele no programa de r\u00e1dio \u201c<i>La Retaguardia\u201d<\/i>\u00a0e n\u00e3o hesitou em qualificar severamente a cont\u00ednua repress\u00e3o do Estado que os mapuches t\u00eam sofrido h\u00e1 muito tempo. Tamb\u00e9m analisou a hist\u00f3ria dos sofrimentos de sua comunidade: \u201cIsso se chama de viol\u00eancia pol\u00edtica, institucional e Terrorismo de Estado. N\u00e3o tem outro nome. Nesta \u00e1rea, h\u00e1 mais de 130 anos que sofremos o Terrorismo de Estado, com a Conquista do Deserto e depois, eventualmente, com a Opera\u00e7\u00e3o Condor. Isto n\u00e3o \u00e9 novo. Que foi deixado um pouco esquecido ou oculto, n\u00e3o significa que n\u00e3o far\u00e3o as mesmas coisas novamente. Temos a certeza de que \u00e9 uma persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para com Facundo. Quando atacam Facundo, atingem a fam\u00edlia e o povo mapuche\u201d, advertiu.<\/p>\n<p>Em seguida deu sua sensa\u00e7\u00e3o sobre a libera\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia e companheiros: \u201cAgora um pouco mais tranquila porque j\u00e1 liberaram os 9 detidos da repress\u00e3o de segunda-feira. Meu filho Fausto, que foi ferido em janeiro, esteve preso esses dias. Tamb\u00e9m meu sobrinho Emilio e minha sobrinha Romina, que s\u00e3o irm\u00e3os. Meu outro sobrinho, Santiago, os lamien e outros companheiros que tamb\u00e9m foram detidos por pedir a liberdade de Lonko Facundo Jones Huala, meu filho mais velho\u201d, contou.<\/p>\n<p>Entre os fatos, o Clar\u00edn [principal jornal argentino] denunciou um inc\u00eandio em La Trochita, Esquel, responsabilizando os mapuches, mas Isabel disse ter s\u00e9rias d\u00favidas sobre a responsabilidade atribu\u00edda aos membros de sua comunidade: \u201cEu vi as fotos em v\u00e1rios jornais e em v\u00e1rios meios de comunica\u00e7\u00e3o do que se queimou. Se foram os mapuches eu tenho minhas d\u00favidas. Tem havido muitos inc\u00eandios e eles culparam Facundo ou os mapuches. Em muitos dos inc\u00eandios aparecem os panfletos ou os pap\u00e9is todos organizados que supostamente deixam os mapuches, inclusive onde houve chuva, neve e geada. Eles aparecem intactos, sem estarem molhados, no meio de um pampa. Onde houve grandes inc\u00eandios aparecem sem sequer queimar. Onde os bombeiros foram jogando \u00e1gua para apagar os inc\u00eandios, o papel aparece sem ter queimado e sem os bombeiros os terem atingido com a \u00e1gua. Tenho minhas d\u00favidas\u201d, ratificou a m\u00e3e de Jonas Huala.<\/p>\n<p><strong>Santiago Maldonado est\u00e1 desaparecido<\/strong><\/p>\n<p>O desaparecimento de Santiago Maldonado, ap\u00f3s a repress\u00e3o em Lof Cushamen, \u00e9 o mais preocupante nesta onda de viol\u00eancia e persegui\u00e7\u00e3o contra a comunidade mapuche. Isabel apontou as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do grupo Benetton com a Ministra da Seguran\u00e7a Interna, Patricia Bullrich, e confirmou que eles n\u00e3o t\u00eam nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o paradeiro do jovem: \u201cN\u00e3o pode saber ainda. A \u00faltima coisa que se sabe \u00e9 que a pol\u00edcia o levou. Eles o viram. As pessoas que estavam fugindo das balas 9 mil\u00edmetros e das balas de borracha, viram que a pol\u00edcia agarrou-o e levou-o. Ningu\u00e9m sabe nada sobre ele. Parentes dele viajaram para Bariloche para poder fazer a den\u00fancia. Apresenta\u00e7\u00f5es foram feitas em Esquel. Est\u00e1 sendo procurado em Esquel, em Bols\u00f3n, em Bariloche, em Mait\u00e9n e em todos os lugares poss\u00edveis das depend\u00eancias\u00a0da Benetton ou de servi\u00e7os da Benetton.\u00a0<strong>Hoje est\u00e3o todos sob as ordens da Benetton, tanto a Gendarmeria como todas as for\u00e7as de seguran\u00e7a. Parece que est\u00e3o de m\u00e3os dadas com a (Patricia) Bullrich, porque a Benetton manda\u201d<\/strong>, explicou.<\/p>\n<p>E acrescentou: \u201cEstamos muito preocupados por isso, mais at\u00e9 do que a libera\u00e7\u00e3o dos nove detidos. O nome dele \u00e9 Santiago Maldonado. \u00c9 de La Plata. Ele veio morar em El Bols\u00f3n. Quando soube da deten\u00e7\u00e3o de Lonko, veio ajudar a comunidade. Agora tamb\u00e9m \u00e9 responsabilidade da Lof encontr\u00e1-lo porque o levaram da comunidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>A repress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Isabel relatou o que as for\u00e7as repressivas significaram, mais uma vez, entre tantas outras. Ela tamb\u00e9m denunciou a persegui\u00e7\u00e3o contra todos os povos nativos, como com os wich\u00ed em Formosa e deixou um pedido espec\u00edfico: \u201cEles queimaram tudo. Queimaram barracas, casas, m\u00f3veis, cadeiras, colch\u00f5es, cobertores e roupas. Todas as sementes que estavam prontas para semear nesta temporada foram queimadas. Levaram todas as ferramentas e motosserras. Os colch\u00f5es novos que tinham sido doados recentemente foram carregados nos caminh\u00f5es e levados embora. Na ter\u00e7a-feira, na deten\u00e7\u00e3o dos lamien, de um dos meus sobrinhos aqui em Bariloche, a pol\u00edcia de R\u00edo Negro roubou o sal\u00e1rio que tinha sido cobrado por seu dia de trabalho. Tiraram de sua mochila, al\u00e9m de lhes bater, insult\u00e1-lo e machuc\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Esclareceu ela que\u00a0<strong>\u201csomos \u00edndios folcl\u00f3ricos e bons quando estamos quietinhos. Quando n\u00e3o levantamos as nossas vozes, quando n\u00e3o lutamos pelos nossos direitos ou pelo nosso territ\u00f3rio. Quando come\u00e7amos a lutar, a gritar e a levantar a voz, nos tornamos os violentos, os maus e os n\u00e3o argentinos.<\/strong>\u00a0Eu n\u00e3o sou argentina nem chilena. Sou mapuche. Sou preexistente aos dois Estados. N\u00e3o quero construir outra na\u00e7\u00e3o. Quero que reconhe\u00e7am minha identidade e me devolvam a dignidade como mapuche\u201d, afirmou convencida.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o de Facundo Jones Huala e o papel da m\u00eddia<\/strong><\/p>\n<p>Facundo ainda est\u00e1 em greve de fome e est\u00e1 na Unidade 14. \u201cEsta ditadura devolveu a verdade que produz muito medo. Muito medo de que apare\u00e7a sem vida. Muito medo de que n\u00e3o s\u00f3 comecem a faze em Lof, mas que tamb\u00e9m fa\u00e7am com pessoas oprimidas. Com o trabalhador que est\u00e1 sem o seu sal\u00e1rio e sem o seu modo de vida. Que comecem a faz\u00ea-lo tamb\u00e9m com todas as pessoas\u201d, explicou a m\u00e3e de Jones Huala.<\/p>\n<p><i><strong>Ela tamb\u00e9m se referiu \u00e0 m\u00eddia, \u201ca coisa mais assustadora \u00e9 as pessoas adormecidas. As pessoas acreditam no Clar\u00edn, no di\u00e1rio de R\u00edo Negro, no di\u00e1rio Jornada, na Red 43. H\u00e1 tantos meios de in-comunica\u00e7\u00e3o que saem para dizer atrocidades, como a TN tamb\u00e9m, que agora se retratava e veio querendo tomar uma nota ao Lonko e queria tamb\u00e9m que me manifestasse, aqui no meu territ\u00f3rio. Eu n\u00e3o a dei\u201d.<\/strong><\/i><\/p>\n<p>Isabel se encarregou de apontar para os l\u00edderes pol\u00edticos respons\u00e1veis desta situa\u00e7\u00e3o e pediu-lhes para anular o julgamento contra seu filho: \u201cTudo o que est\u00e1 acontecendo, al\u00e9m da m\u00eddia, h\u00e1 muito poucas pessoas que podem remedi\u00e1-lo. Uma \u00e9 a Corte Suprema que tem de manifestar-se no caso de Facundo. Eles n\u00e3o podem fazer um julgamento duplo quando houve um julgamento no ano passado e foi anulado. Exijo que a Corte Suprema diga alguma coisa e anule este novo julgamento que o juiz quer fazer (Gustavo) Villanueva. \u00c9 ilegal. Ele est\u00e1 sendo sequestrado na pris\u00e3o de Esquel. Eles o levaram daqui, de Bariloche, para Esquel, quando duas semanas antes n\u00e3o havia avi\u00f5es para trazer comida para os animais e nosso povo atingido pela cheia do rio, em Mait\u00e9n e Cushamen. Toda esta \u00e1rea foi isolada pela neve. Eles fizeram este grande teatro para que descobr\u00edssemos pelos meios de in-comunica\u00e7\u00e3o e nem sequer dar um telefonema para chamar a fam\u00edlia e dizer que eles tinham atrasado no (Posto) Villegas ou dizer-nos que ia ser transferido para Esquel tal dia. Eles n\u00e3o puderam fazer isso, e eles n\u00e3o puderam ajudar as pessoas que realmente precisavam\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 claro para mim que a Corte Suprema, o presidente (Mauricio) Macri, a Ministra Bullrich, (Mario) das Neves, Weretilneck e todos os idiotas de plant\u00e3o que est\u00e3o neste momento eleitos pelo povo, que est\u00e1 adormecido e continua a reproduzir as grandes mentiras que trazem a m\u00eddia e os meios de in-comunica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os \u00fanicos respons\u00e1veis.<\/strong>\u00a0Da sa\u00fade do meu filho por estar em greve de fome. Do que chegue a acontecer com Santiago Maldonado. Desses dias que estiveram presos todos esses meninos, meus sobrinhos, meus mapuches e meus lamien, que perderam dias de trabalho, perderam dias de estar com seus filhos. As \u00fanicas pessoas respons\u00e1veis s\u00e3o os idiotas de plant\u00e3o. Tamb\u00e9m a presidente Bachelet porque se junta para fazer acordos com Macri e as preocupa\u00e7\u00f5es que menos t\u00eam \u00e9 com as crian\u00e7as mapuche, com o povo mapuche e seguem a matar mapuches em Gulumapu\u201d, denunciou.<\/p>\n<p><i><strong>Para terminar, Isabel Huala deixou uma reflex\u00e3o sobre as injusti\u00e7as que existem com os povos nativos e a enorme discrimina\u00e7\u00e3o contra eles. Assegurou que eles n\u00e3o est\u00e3o com medo e que eles v\u00e3o continuar a lutar para restaurar a dignidade. \u201c\u00c9 muito triste que isso esteja acontecendo. \u00c9 muito triste ver nas redes sociais a quantidade de absurdos racistas que as pessoas dizem. Todos pensam que s\u00e3o europeus. Todos eles desceram dos barcos, mas eles n\u00e3o devem esquecer que quando eles sa\u00edram dos barcos foi porque l\u00e1 estavam famintos, porque l\u00e1 estavam em guerra. \u00c9 por isso que tiveram que vir para esta regi\u00e3o. Eles n\u00e3o vieram aqui com bolsos cheios. Eles vieram para tirar a terra de n\u00f3s, em cumplicidade com o Estado argentino e o Estado chileno\u201d.<\/strong><\/i><\/p>\n<p>Ela deixou claro que hoje eles pedem justi\u00e7a e dignidade e que isso lhes ser\u00e3o devolvidos, reconhecendo o genoc\u00eddio que fizeram com todos os povos nativos. \u201cEles mataram-nos, massacraram-nos. Hoje vamos levantar-nos e vamos continuar a levantar. N\u00e3o estamos mais com medo. N\u00e3o temos mais medo da repress\u00e3o. N\u00e3o temos medo das balas. N\u00e3o temos medo de todo esse aparato. N\u00e3o temos medo de sua justi\u00e7a, porque sabemos que foi feita sobre o sangue de nossos antepassados\u201d, advertiu a m\u00e3e de Facundo.<\/p>\n<p>Isabel Huala enviou for\u00e7a para todos aqueles e aquelas que lutam, para os povos nativos do Norte, para Santill\u00e1n \u2013 que tamb\u00e9m est\u00e1 em greve de fome como meu filho -, \u201cum grande abra\u00e7o e muito newen\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>O discurso de Isabel \u00e9 duro. \u00c9 dif\u00edcil de ouvir para boa parte da popula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tantos anos de pilhagem e persegui\u00e7\u00e3o que talvez os mapuche que tentam se levantar n\u00e3o podem medir se est\u00e3o ante um governo mais repressivo do que os anteriores, ou se s\u00e3o expostos para que o governo possa us\u00e1-los e dar uma mensagem exemplar. Pesam os anos. E n\u00e3o parece que exista algo mais para acalm\u00e1-los que respeitar os seus direitos, que lhes devolvam parte de suas terras arrancadas a sangue e fogo, para serem capazes de viver em harmonia com a natureza de acordo com sua vis\u00e3o de mundo. O Estado parece ter respondido com o pior das repress\u00f5es. Com uma pessoa desaparecida. Novamente, com uma pessoa desaparecida.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/latinta.com.ar\/2017\/08\/indios-buenos-calladitos-peleamos-violentos\/\">https:\/\/latinta.com.ar\/2017\/08\/indios-buenos-calladitos-peleamos-violentos\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retirado de ANA: Ap\u00f3s a repress\u00e3o da comunidade mapuche em Lof Cushamen, h\u00e1 uma pessoa desaparecida. Trata-se de Santiago Maldonado. 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