{"id":2527,"date":"2016-06-04T00:36:15","date_gmt":"2016-06-03T22:36:15","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=2527"},"modified":"2016-06-04T00:36:15","modified_gmt":"2016-06-03T22:36:15","slug":"artigo-o-que-temer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=2527","title":{"rendered":"[Artigo] O que Temer?"},"content":{"rendered":"<p><em>Retirado de RIA:<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2528 \" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2016\/06\/anarquia-voto-nulo.jpg\" alt=\"anarquia-voto-nulo\" width=\"593\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2016\/06\/anarquia-voto-nulo.jpg 614w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2016\/06\/anarquia-voto-nulo-150x72.jpg 150w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2016\/06\/anarquia-voto-nulo-300x144.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 593px) 100vw, 593px\" \/><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Segundo a historiografia oficial e oficiosa, grosso modo, as for\u00e7as pol\u00edticas brasileiras \u2013 e latino-americanas, em geral \u2013 dividir-se-iam, de bom grado, em dois grandes blocos: liberais doutrin\u00e1rios vs. autorit\u00e1rios instrumentais; luzias vs. saquarema; conservadores entreguistas vs. nacionais desenvolvimentistas; coxinhas e petralhas. Nada novo sob o sol. Contudo, a dicotomia n\u00e3o resiste \u00e0 prova. N\u00e3o apenas no sentido de que outras for\u00e7as diabolizam essa simbologia bipartid\u00e1ria, borrando o espectro, mas tamb\u00e9m pelo fato de que, como alertava Gabriel Garcia Marquez, \u201cnada mais parecido com um conservador do que um liberal no poder\u201d. N\u00e3o afirmamos a identidade entre Michel Temer e Dilma Rousseff, diga-se de uma vez. Apenas pontuamos a necessidade de saber de quais diferen\u00e7as se tratam. Afinal de contas, o que temer?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A m\u00e1quina capitalista funciona como axiomatiza\u00e7\u00e3o dos fluxos, atrav\u00e9s de todos os meios necess\u00e1rios. Ousado, descolado e perform\u00e1tico, esse enunciado, que t\u00e3o bem poderia ilustrar a camiseta dalgum barbudinho da Pra\u00e7a S\u00e3o Salvador, descreve com precis\u00e3o c\u00ednica o processo que pauta as idas e vindas dessa inst\u00e2ncia misteriosa chamada de \u201cavan\u00e7o democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O que \u00e9 uma axiom\u00e1tica? Um sistema axiom\u00e1tico \u00e9 uma esp\u00e9cie de sistema dedutivo que parte de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas n\u00e3o-questionadas ou tidas como evidentes \u2013 os axiomas \u2013 para chegar-se \u00e0s conclus\u00f5es permitidas pelo sistema atrav\u00e9s de regras de defini\u00e7\u00e3o. Isso significa \u2013 bem entendido, aplicada \u00e0 discuss\u00e3o que pretendemos levar adiante aqui \u2013 que no capitalismo a produ\u00e7\u00e3o de tudo que existe \u00e9 submetida a um conjunto de axiomas que fazem com que os fluxos de trabalho e o os fluxos de capital sejam conjugados e encaminhados, para alegria de poucos e mis\u00e9ria de muitos, para o mercado mundial. No capitalismo, a produ\u00e7\u00e3o de tudo que existe, inclusive a produ\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, acaba sendo capturada para os fins do mercado. Produz-se para o mercado e nos termos do mercado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Nesse movimento de organizar toda a atividade humana e canaliz\u00e1-la para o mercado, isto \u00e9, organizar a produ\u00e7\u00e3o num \u201cmodo\u201d, transform\u00e1-la em trabalho \u2013 e, mais, em trabalho assalariado do qual se extrai a mais-valia \u2013 o Estado joga um papel decisivo. \u00c9 ele que transforma cada um de n\u00f3s em sujeito de direitos. Isto \u00e9, em pessoa privada, despida de toda e qualquer singularidade e que, para se ver restitu\u00edda de tudo aquilo que lhe foi espoliado nesse processo, adquire benef\u00edcios e pagamentos, seja a t\u00edtulo de direitos sociais ou massa salarial. Como essa restitui\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 poss\u00edvel \u2013 como atesta a hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 a m\u00e1quina capitalista sempre se v\u00ea diante da tarefa de acrescentar novos e novos axiomas na sua j\u00e1 velha axiom\u00e1tica. Infelizmente, essa \u00e9 toda a hist\u00f3ria dos sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores. Enganchar pequenos axiomas na velha axiom\u00e1tica do capital. Axiomas para a classe trabalhadora atrav\u00e9s de programas como o bolsa fam\u00edlia, somado a um aumento real na massa salarial, e um aumento virtual do poder de compra ocasionado por endividamento \u2013 numa esp\u00e9cie de keynesianismo privado \u2013 gerado atrav\u00e9s de um sistema de cr\u00e9dito articulado nas malhas do capital financeiro mundial (ou, nas palavras do pr\u00f3prio Lula na Lapa, ou seria Lula L\u00e9l\u00e9: jamais os banqueiros lucraram tanto!); axiomas para os negros e jovens pobres atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de um sistema de cotas aliados a programas como o Prouni e Pronatec; promessa de axiomas para as mulheres atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um minist\u00e9rio voltado a problem\u00e1ticas vinculadas \u00e0s disparidades de g\u00eanero e toda sorte de opress\u00f5es a isso vinculadas. Entre promessas e concretiza\u00e7\u00f5es, o Partido dos Trabalhadores liberava todo o seu volume nas ondas do capital.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">N\u00e3o sejamos hip\u00f3critas. N\u00e3o fa\u00e7amos eco aos enunciados mais reacion\u00e1rios da pol\u00edtica brasileira. Mas n\u00e3o sejamos tamb\u00e9m os governistas de \u00faltima hora. Os anarquistas arrependidos. Aqueles que aderem ao barco do governo que naufraga simplesmente por perceber que os fascistas sitiaram a praia. Existem, evidentemente, diferen\u00e7as entre um governo que cria ou pretende criar axiomas sens\u00edveis aos devires minorit\u00e1rios e aqueles que submetem as secretarias de Mulheres, Direitos Humanos, Juventude e Igualdade Racial ao crivo do \u2013 historicamente faloc\u00eantrico e hegemonicamente ocupado por homens brancos \u2013 Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Longe de pautar a justi\u00e7a nos termos da igualdade racial, essa manobra tem por finalidade transformar os problemas sociais em quest\u00f5es policiais.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">N\u00f3s n\u00e3o somos idiotas, existem diferen\u00e7as! Todavia, acreditamos que essa diferen\u00e7a seja t\u00e3o grande quanto aquela que separa Blairo Maggi e K\u00e1tia Abreu, atual ministro e ex-ministra da agricultura respectivamente.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Nesse sentido, o que temos que temer \u00e9 exatamente aquilo que j\u00e1 v\u00ednhamos temendo nos \u00faltimos anos dos governos do PT. A saber, a retirada desses pequenos axiomas que foram enganchados lentamente no corpo do capital (os programas sociais, os avan\u00e7os m\u00ednimos na massa salarial, os t\u00edmidos avan\u00e7os na promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial e de g\u00eanero atrav\u00e9s dos programas de cotas) articuladas em meio ao exterm\u00ednio de negros e ind\u00edgenas. Contudo, sabendo dos riscos e evitando a posi\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica, acreditamos que as anarquistas possuem aqui um ponto vital. A derrocada do projeto axiom\u00e1tico do PT tem por consequ\u00eancia elevar a milit\u00e2ncia combativa para um outro patamar. Trata-se, em suma, de reconhecer de uma vez por todas que a m\u00e1quina capitalista funciona aumentando e retirando axiomas conforme a conjuntura e que instaurar uma insurg\u00eancia efetivamente antic\u00edclica consiste em implodir a m\u00e1quina e todos os seus axiomas. Longe de afirmar que quanto pior melhor, n\u00f3s anarquistas temos a ocasi\u00e3o para reconhecer que diante da retirada desses axiomas n\u00e3o h\u00e1 motivos para retroceder e embarcar no governismo, nem muito menos temer o devir sombrio desse novo governo fascist\u00f3ide.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Se n\u00e3o temos o que temer, resta saber o que fazer quando os repert\u00f3rios tradicionais de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o capturados pela direita. Nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, vimos emergir um grande campo de combate que se espalhava entre as ruas das cidades e as redes do ciberespa\u00e7o. As grandes massas constitu\u00edam espa\u00e7os heterog\u00eaneos que enunciavam muitas coisas. De l\u00e1 para c\u00e1, num claro movimento de captura articulado em camisas da CBF, matracas verde-amarelas, dan\u00e7as coreografadas e patos da FIESP, o ato de se manifestar foi transformado num espet\u00e1culo, incentivado pela Globo e outras m\u00eddias hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A publiciza\u00e7\u00e3o, em meios de onde se escorre veneno por entre linhas e pautas, dos atos corruptos do governo, centralizou no PT e na figura da presidente as milhares de cr\u00edticas sist\u00eamicas dos manifestantes. O investimento reacion\u00e1rio na constitui\u00e7\u00e3o de um n\u00f3s combativo \u2013 que atua contra a corrup\u00e7\u00e3o e os problemas do mundo \u2013 suplantou com cinismo a velha quest\u00e3o de quem seria de fato o sujeito revolucion\u00e1rio. Olavo de Carvalho destronou Marx e os novos revoltados est\u00e3o online. No reino da fic\u00e7\u00e3o fascist\u00f3ide \u2013 onde reina um universo comunista e anti-homofobia regido pelo foro de S\u00e3o Paulo \u2013 combativo \u00e9 ser reacion\u00e1rio. O pior \u00e9 que os jovens e cabeludos est\u00e3o caindo nessa ladainha. Lembran\u00e7a do velho postulado: todo fascismo \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o fracassada.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">O movimento c\u00edclico e veloz do capitalismo se atualiza em acontecimentos desastrosos. Ao contr\u00e1rio de um navio sem dire\u00e7\u00e3o, a m\u00e1quina capitalista se territorializa entre mobilidade e controle, dispositivos materializados nas pol\u00edticas de urbanismo. As cidades se desenvolvem atrav\u00e9s de tecnologias repressivas e est\u00e9ticas higienistas. Por que pensarmos ent\u00e3o uma polaridade entre os governos de direita e de \u201cesquerda\u201d, ao inv\u00e9s de assumirmos que n\u00e3o h\u00e1 conjuga\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre esquerda e governo?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">A favor de uma an\u00e1lise mais materialista da conjuntura pol\u00edtica atual e menos ligada a reprodu\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica representativa, ou do Estado enquanto \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo de poder, desejamos desenvolver uma reflex\u00e3o que, partindo dos dispositivos de controle, seja capaz de sugerir o deslocamento dos centros de gravidade da pol\u00edtica para instaurar espa\u00e7os e pr\u00e1ticas de resist\u00eancia e insurg\u00eancia. Trata-se, em suma, de criticar todas as posturas que investem na disputa da institucionalidade burguesa considerando que se trata de um movimento de alargamento dos par\u00e2metros de interioriza\u00e7\u00e3o. Ou seja, entender que no melhor dos mundos poss\u00edveis da institucionalidade o m\u00e1ximo que se consegue \u00e9 incluir o maior n\u00famero de pessoas na din\u00e2mica do mercado capitalista globalizado. Quando o que devemos, na verdade, \u00e9 criar zonas de exterioridade \u2013 tempor\u00e1rias ou n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Bom momento para as anarquiadas. Lutas menos interessadas em aparelhamentos midi\u00e1ticos ou estatais, refrat\u00e1rias a todas as nuances da captura. A situa\u00e7\u00e3o atual exige exterioriza\u00e7\u00e3o ao capital, no sentido territorial e organizativo, na constru\u00e7\u00e3o de autonomia, autogest\u00e3o e autodefesa. O momento \u00e9 oportuno, afinal com a redu\u00e7\u00e3o, ou mesmo com a retirada desses axiomas \u2013 que funcionavam como colch\u00e3o de amortecimento para as derivas da m\u00e1quina capitalista \u2013 ocasionados pela transi\u00e7\u00e3o para o novo governo, algumas lutas, antes aparelhadas pelo Estado, encontrar-se-\u00e3o doravante desaxiomatizadas, destuteladas, desprotegidas de uma prote\u00e7\u00e3o que s\u00f3 lhes vedava autonomia. Em poucas palavras, desgovernadas \u2013 reconduzidas \u00e0 selvageria de um devir revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">Essa conjuntura marca a urg\u00eancia de outras estrat\u00e9gias de insurg\u00eancia, que n\u00e3o se detenham ao espa\u00e7o \u201clegitimado\u201d da manifesta\u00e7\u00e3o e dos atos de rua, mas que apostem em t\u00e1ticas menos chamativas ou espetacularizadas. Criar zonas aut\u00f4nomas, ocupar e fortalecer a ocupa\u00e7\u00e3o das escolas, das f\u00e1bricas, dos espa\u00e7os de moradia, dos bairros, das cidades e dos mundos (im)poss\u00edveis. Diante desse cen\u00e1rio de consagra\u00e7\u00e3o de um governo que nasce morto \u2013 da\u00ed a necessidade de se botar um vampiro na presid\u00eancia \u2013 nunca antes na hist\u00f3ria desse pa\u00eds foi t\u00e3o desej\u00e1vel afirmar o lema anarquista para dizer: n\u00e3o nos submetamos a nenhum governo, todo governo \u00e9 um golpe, cuidemos n\u00f3s mesmos das nossas vidas.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"center\"><strong>Por N\u00f4mades Urbanos An\u00e1rquicos<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retirado de RIA: Segundo a historiografia oficial e oficiosa, grosso modo, as for\u00e7as pol\u00edticas brasileiras \u2013 e latino-americanas, em geral \u2013 dividir-se-iam, de bom grado, em dois grandes blocos: liberais doutrin\u00e1rios vs. autorit\u00e1rios instrumentais; luzias vs. saquarema; conservadores entreguistas vs. &hellip; <a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=2527\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6952,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-guerra-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6952"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2527"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2529,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527\/revisions\/2529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}