{"id":1552,"date":"2014-10-18T20:46:14","date_gmt":"2014-10-18T18:46:14","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1552"},"modified":"2014-10-18T20:46:14","modified_gmt":"2014-10-18T18:46:14","slug":"prisoes-italianas-tudo-o-resto-e-aborrecido-notas-soltas-sobre-acao-direta-de-nicola-gai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1552","title":{"rendered":"[Pris\u00f5es italianas] Tudo o resto \u00e9 aborrecido. Notas soltas sobre a\u00e7\u00e3o direta. De Nicola Gai"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1553\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/11422_Henri_Cartier-Bresson-300x202.jpg\" alt=\"11422_Henri_Cartier-Bresson\" width=\"300\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/11422_Henri_Cartier-Bresson-300x202.jpg 300w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/11422_Henri_Cartier-Bresson-150x101.jpg 150w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/11422_Henri_Cartier-Bresson.jpg 646w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Pensei em escrever estas notas, porque me parece que ultimamente, at\u00e9 mesmo entre n\u00f3s anarquistas, se est\u00e1 a falar muito pouco da a\u00e7\u00e3o direta (e, infelizmente, a ser praticada pouco\u2026), privilegiando-se as tentativas de encontro com as \u201cmassas\u201d mais ou menos indignadas. Decidi faz\u00ea-lo na Cruz Negra, porque espero que esta possa converter-se num espa\u00e7o de debate entre aquelxs que consideram a a\u00e7\u00e3o como o centro do seu caminho de luta. Espero, sinceramente, que a Cruz Negra se converta n\u00e3o na reuni\u00e3o das m\u00e1s sortes carcer\u00e1rias mas sim no lugar onde se pode retirar informa\u00e7\u00e3o e aprofundar sem meias palavras \u2013 a partir de diferentes pontos de vista e sobre quest\u00f5es que s\u00e3o consideradas \u00fateis \u2013 para dar mais contund\u00eancia \u00e0 luta contra a autoridade. De fato, a a\u00e7\u00e3o direta \u00e9 algo para agir e n\u00e3o para pontificar mas estou convencido de que esclarecer o que cada um de n\u00f3s\u00a0 realmente entende quando usa essa palavra pode ajudar a agu\u00e7ar armas para isso atacar.<br \/>\nPara abordar a quest\u00e3o, sem me perder em tor\u00e7\u00f5es in\u00fateis de palavras, quero\u00a0 esclarecer primeiro o que, para mim, n\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>Concentra\u00e7\u00f5es, distribui\u00e7\u00e3o de folhetos, manifesta\u00e7\u00f5es \u201cdeterminadas e de comunica\u00e7\u00e3o\u201d, tartes (pinturas, cuspidelas, etc) na face do infame de turno, ovos com cores e todo esse tipo de coisas n\u00e3o podem ser consideradas a\u00e7\u00e3o direta. Estou ciente de que uma lista deste estilo atrair\u00e1 at\u00e9 mim as setas dxs que sust\u00eam que todos os meios t\u00eam a mesma dignidade na luta, o meu discurso poder\u00e1 parecer superficial, \u201cmilitarista\u201d, impregnado de uma \u00f3ptica de efic\u00e1cia e bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1 \u2026 Mas ningu\u00e9m, honestamente, pode negar que neste momento ao fazer essas coisas se est\u00e1 a mimar a luta, renunciando-se a viv\u00ea-la realmente.<\/p>\n<p>Estou convencido de que se est\u00e1 a afrontar de \u00e2nimo leve a luta, com um sorriso nos l\u00e1bios: n\u00e3o se trata s\u00f3 de um jogo, mas nada mais s\u00e9rio h\u00e1 do que um jogo onde as apostas s\u00e3o representadas pela qualidade de nossas vidas e da nossa liberdade. Ningu\u00e9m pode negar que a correspond\u00eancia entre o pensamento e a a\u00e7\u00e3o deveria ser a caracter\u00edstica fundamental de ser anarquista. Se pensarmos que a destrui\u00e7\u00e3o deste mundo \u00e9 necess\u00e1ria, ent\u00e3o temos de agir em consequ\u00eancia, n\u00e3o podemos recorrer a truques baratos, simp\u00e1ticos e inofensivos, para silenciar a luta, enganando as nossas consci\u00eancias famintas de liberdade. Devemos ter a coragem de afirmar que a a\u00e7\u00e3o direta ou \u00e9 destrutiva ou n\u00e3o \u00e9 a\u00e7\u00e3o direta. Os muros que nos aprisionam n\u00e3o cair\u00e3o por si, mas sim s\u00f3 se investidos forem pela onda de choque da nossa raiva. \u00c9 in\u00fatil que a lista de turno nos recorde que a insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o resultado da soma aritm\u00e9tica dos ataques realizados por anarquistas, estou a falar de outra coisa. A nossa vida \u00e9 demasiado curta para nos permitirmos desgast\u00e1-la com centenas de acontecimentos para despertar as massas adormecidas, para que estas se apresentem pontuais \u00e0 cita\u00e7\u00e3o no dia m\u00e1gico: s\u00f3 quando atacamos concretamente o existente conseguimos arrancar peda\u00e7os de liberdade \u2013 mesmo que apenas por alguns momentos \u2013 libertando-nos das amarras impostas pela vida quotidiana e pela lei.<\/p>\n<p>A nossa luta deve ser violenta, sem compromissos, sem possibilidade de media\u00e7\u00f5es ou vacila\u00e7\u00f5es: a a\u00e7\u00e3o direta destrutiva, o \u00fanico meio que dever\u00edamos usar para nos relacionarmos com quem nos oprime. Mas as coisas, como sempre acontece na realidade, s\u00e3o um pouco mais complicadas, infelizmente a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 por si n\u00e3o constituir\u00e1 a panac\u00e9ia para todos os males do nosso movimento. Ainda que esteja absolutamente convencido de que nenhum ato de revolta \u00e9 in\u00fatil ou prejudicial, entendo ser fundamental questionarmos-nos sobre a projetualidade que as geram e, acima de tudo, sobre o significado que lhe d\u00e3o aquelxs que as fazem. O pr\u00f3prio ato pode assumir significados muito diferentes, se concebido numa \u00f3ptica de ataque ou de defesa. Vou tentar explicar com um exemplo pr\u00e1tico: no ano passado, em Vale de Susa, assistimos a um aumento positivo das pr\u00e1ticas de sabotagem na luta contra o TAV; perfeito, se entre as inten\u00e7\u00f5es daquelxs que fizeram tais a\u00e7\u00f5es estivesse presente a inten\u00e7\u00e3o de afirmar claramente que n\u00e3o est\u00e1 em jogo s\u00f3 impedir a constru\u00e7\u00e3o de uma linha ferrovi\u00e1ria, mas antes a necessidade de atacar e destruir todo o projecto do sistema tecno-industrial que a desenha. Outra coisa \u00e9 o sentido do que se pode ler em alguns comunicados do movimento NO TAV \u2013 ou, o que \u00e9 ainda mais desconcertante, no n \u00ba 5 de Lavanda, hoje desenhada por alguns\/algumas companheirxs envolvidxs nesta luta. Tais a\u00e7\u00f5es poder-se-iam\u00a0 interpretar como o \u00faltimo recurso de uma popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 utilizou todos os meios de press\u00e3o poss\u00edveis (e pac\u00edficos \u2026) sem obter a aten\u00e7\u00e3o dxs que xs governam. Estou convencido de que tal interpreta\u00e7\u00e3o banaliza qualquer aspecto positivo e revolucion\u00e1rio de tais atos; de fato, sugere que, se o poder fosse mais \u201crazo\u00e1vel\u201d se fosse mais aberto ao di\u00e1logo, existiria a possibilidade de o \u201cconvencer\u201d para mitigar os seus aspectos mais nefastos.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o direta s\u00f3 expressa todo o seu potencial de liberta\u00e7\u00e3o quando \u00e9 concebida numa \u00f3ptica de ataque. N\u00f3s n\u00e3o golpeamos o inimigo pelo desgosto com o seu \u00faltimo delito, que se tornou insuport\u00e1vel, mas porque queremos ser livres, aqui e agora. N\u00e3o necessitamos justifica\u00e7\u00f5es para golpear, n\u00e3o podemos aceitar viver uma vida carente de sentido, como meras engrenagens desse sistema mortal, \u00e9 simples. Devemos ser n\u00f3s quem dita os momentos de luta, h\u00e1 todo um mundo para demolir e as chances de derrotar o monstro tecnol\u00f3gico est\u00e3o a tornar-se cada vez mais pequenas, se em propor\u00e7\u00e3o ao seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Quando falamos de a\u00e7\u00e3o direta estamos a falar da nossa vida, visto a rejei\u00e7\u00e3o que temos ao existente n\u00e3o ser uma moda, mas algo muito mais profundo em que colocamos em jogo toda a nossa exist\u00eancia. Por este motivo, acho realmente irritante quando nos referimos a qualquer a\u00e7\u00e3o, dizendo que \u201cera o m\u00ednimo que se podia fazer.\u201d Estou convencido de que n\u00e3o h\u00e1 nada que possa ser feito ao m\u00ednimo, pelo menos contra o que nos oprime, n\u00e3o podemos nos auto-impor limites de ac\u00e7\u00e3o, esta deve ser sem restri\u00e7\u00f5es tal como a nossa sede de liberdade. Se nos encontramos perante um explorador assassino de uniforme, etc, e se decidimos manchar-lhe o vestu\u00e1rio com pintura, isso n\u00e3o \u00e9 o m\u00ednimo que se podia fazer mas sim o que decidimos fazer. Trata-se de algo ditado por uma s\u00e9rie de an\u00e1lises \u2013 que n\u00e3o dando mais for\u00e7a \u00e0 a\u00e7\u00e3o ainda a minimizam: \u201cas pessoas n\u00e3o nos entenderiam, n\u00e3o devemos dar um passo a mais que os restantes, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar por a\u00e7\u00f5es pequenas, as que s\u00e3o facilmente reprodut\u00edveis\u201d, etc.<\/p>\n<p>Naturalmente, trata-se de considera\u00e7\u00f5es que precisam de um tratamento mais profundo e espero que haja forma de voltar a isto e discuti-lo seriamente, o que hoje queria dizer \u00e9 que devemos sempre aspirar a fazer o m\u00e1ximo que as nossas habilidades consintam. Quando agimos, devemos faz\u00ea-lo essencialmente por n\u00f3s mesmxs e da maneira mais resoluta poss\u00edvel, n\u00e3o somos distintos daquelxs a que de forma autorit\u00e1ria chamamos \u201d gente comum\u201d, o que quer que fa\u00e7amos qualquer pessoa o pode reproduzir, desde que alimente o nosso pr\u00f3prio desejo de destruir a autoridade. N\u00e3o devemos tentar convencer as massas da bondade de nossa tese, mas procurar c\u00famplices que queiram participar na obra de demoli\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temos<br \/>\nde ter medo do nosso \u00f3dio, mas devemos lan\u00e7ar-nos \u00e0 a\u00e7\u00e3o, conscientes de que o inimigo n\u00e3o hesita nem um segundo na sua guerra contra a liberdade.<\/p>\n<p>Estas notas foram ditadas n\u00e3o tanto pelo desejo de desenvolver qualquer an\u00e1lise te\u00f3rica inovadora mas mais pelo desejo de tentar compartilhar a ideia da centralidade necess\u00e1ria da pr\u00e1tica destrutiva de a\u00e7\u00e3o direta na vida de qualquer anarquista revolucion\u00e1rix. Tudo o que acabou de ser dito seria certamente \u00f3bvio se n\u00e3o existissem tantxs companheirxs a consumirem tantxs for\u00e7as, girando como pe\u00f5es em ativismos a que falta qualquer projetualidade verdadeiramente revolucion\u00e1ria, marcada pelas feridas do assistencialismo e do oportunismo. No entanto, j\u00e1 existem ant\u00eddotos para tudo isso: organiza\u00e7\u00e3o informal, o nihlismo, o individualismo, a recusa de l\u00edderes carism\u00e1ticos, a recusa do poder extra assemble\u00e1rio, a comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso voltar a olhar para o que est\u00e1 a acontecer \u00e0q volta do mundo, como historicamente sempre t\u00eam feito xs anarquistas, inimigxs de todas as fronteiras, e dar-nos-emos conta de como companheirxs de todas as latitudes est\u00e3o a experimentar novos modos de a\u00e7\u00e3o, libertando-nos dos grilh\u00f5es das lutas sociais para nos lan\u00e7armos sem freio ao ataque do existente. Temos de redescobrir a alegria de atuar, parar de nos limitarmos a uma busca ilus\u00f3ria do consentimento popular; sem tantxs \u2026 te\u00f3ricxs, o nosso objetivo deve ser simplesmente destruir o que nos destr\u00f3i. Libertemo-nos da pol\u00edtica, mesmo no seu decl\u00ednio antagonista; deve ficar claro que n\u00e3o lutamos por um futuro brilhante, mas por um viver, aqui e agora, a anarquia deveria ser em primeiro lugar um ato individual que afectasse a nossa pr\u00f3pria vida: devemos conspirar, alimentar cada pequeno fogo que possa incendiar toda a pradaria, atentar com todos os meios contra a ordem, civilizada e tecnol\u00f3gica, que o sistema tenta impor. Nesta luta, devemos utilizar todas as armas que tenhamos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, em primeiro lugar as que n\u00e3o faltam no arsenal de todx x anarquista: a vontade e a a\u00e7\u00e3o direta destrutiva.<\/p>\n<p>Fray Nicola Ferrara [Nicola Gai]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensei em escrever estas notas, porque me parece que ultimamente, at\u00e9 mesmo entre n\u00f3s anarquistas, se est\u00e1 a falar muito pouco da a\u00e7\u00e3o direta (e, infelizmente, a ser praticada pouco\u2026), privilegiando-se as tentativas de encontro com as \u201cmassas\u201d mais ou &hellip; <a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1552\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6952,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,58,53],"tags":[],"class_list":["post-1552","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-guerra-social","category-italia","category-presxs"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6952"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1552"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1552\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1554,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1552\/revisions\/1554"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}