{"id":1540,"date":"2014-10-13T22:22:54","date_gmt":"2014-10-13T20:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1540"},"modified":"2014-10-13T22:22:54","modified_gmt":"2014-10-13T20:22:54","slug":"o-estado-e-a-maneira-errada-de-fazer-as-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1540","title":{"rendered":"O Estado \u00e9 a maneira errada de fazer as coisas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1541\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/1376516_346115382201368_1139352941_n-201x300.jpg\" alt=\"1376516_346115382201368_1139352941_n\" width=\"201\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/1376516_346115382201368_1139352941_n-201x300.jpg 201w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/1376516_346115382201368_1139352941_n-100x150.jpg 100w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/10\/1376516_346115382201368_1139352941_n.jpg 473w\" sizes=\"auto, (max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/><\/p>\n<p><em>Retirado de Recife-Resiste:<\/em><\/p>\n<p>01 de outubro de 2014<\/p>\n<p>Em quem voc\u00ea vai votar? Chegados os tempos de elei\u00e7\u00e3o, nos esfor\u00e7amos para organizar os nossos pensamentos para explicar os motivos dessa pergunta n\u00e3o nos fazer o menor sentido. O nosso objetivo \u00e9 simples de ser entendido, por\u00e9m dif\u00edcil de ser realizado. Queremos demonstrar que o Estado \u00e9 a maneira errada de fazer as coisas. Para isso falaremos muito \u2013 mas n\u00e3o o suficiente \u2013 e, em alguns momentos, de forma um pouco chata. Se serve de desculpa, esse foi o \u00fanico caminho que encontramos.<\/p>\n<p>\u00c9 recorrente na hist\u00f3ria que se pense que o mundo vivido \u00e9 o \u00fanico poss\u00edvel. Essa \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que tem muita for\u00e7a atualmente: muitos sustentam n\u00e3o haver a possibilidade de uma transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade. Claro que nos opomos a isso. Ao contr\u00e1rio do que ocorre com aqueles que se esfor\u00e7am para legitimar as domina\u00e7\u00f5es, queremos refletir criticamente sobre o Estado, perceber os aspectos negativos dessa forma de nos organizarmos para que assim possamos encontrar outras realidades. Em um mundo em que as rela\u00e7\u00f5es de opress\u00f5es aparecem como naturais e eternas, a cr\u00edtica coloca em movimento, estimula. Nessa disputa por uma concep\u00e7\u00e3o de sociedade mais livre, \u00e9 central ver atrav\u00e9s da hist\u00f3ria que as formas como nos constitu\u00edmos carregam certo grau de arbitrariedade. Ou seja, conhecemos suficientes maneiras de nos organizarmos para saber que nenhuma \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel. Podem nos chamar de ignorantes ou de ing\u00eanuos, mas esperamos sim que o(s) mundo(s) seja(m) diferente(s). Aqui nega\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a se completam em uma dan\u00e7a que busca sair dos limites do tablado.<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 o Estado?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>O nosso ponto de partida \u00e9 o poder. De forma resumida \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a unidade b\u00e1sica do Estado \u00e9 o poder pol\u00edtico, ou seja, a capacidade de impor coercitivamente a vontade de umas pessoas sobre a de outras. O que fundamenta o Estado \u00e9 a possibilidade de uns exercerem um poder-sobre outros. \u00c9 muito claro que esse poder coercitivo n\u00e3o faz parte da \u201cnatureza humana\u201d pelo simples motivo de que existiram muitas sociedades que se recusaram a se organizar assim. N\u00e3o sendo natural que isso ocorra, ele s\u00f3 pode ser entendido atrav\u00e9s das suas ocorr\u00eancias. O Estado \u00e9, portanto, uma forma hist\u00f3rica de organiza\u00e7\u00e3o social \u2013 dentre as muitas poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o poder coercitivo n\u00e3o ocorre somente no Estado, portanto, precisamos de algo mais para nos referir a esse grande monstro. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel igualar os dois conceitos. Para falarmos do Estado, propriamente dito, \u00e9 necess\u00e1rio que estejamos nos deparando com estruturas espec\u00edficas. A caracter\u00edstica principal do Estado \u00e9 ser uma inst\u00e2ncia separada da coletividade e o fato de ser institu\u00eddo com o intuito de assegurar constantemente essa separa\u00e7\u00e3o. A forma que assume ao realizar isso \u00e9 uma estrutura burocr\u00e1tica e hier\u00e1rquica. Como nos faz lembrar o termo burocracia, ele tende a suprimir aquilo que \u00e9 proclamado como seus objetivos, ou seja, possui uma in\u00e9rcia e uma l\u00f3gica pr\u00f3pria que dominam as finalidades para as quais elas deveriam servir. As evid\u00eancias se invertem: o que podia ser visto como um conjunto de institui\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da sociedade, transforma-se numa sociedade a servi\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es. A pol\u00edcia com seus cassetetes que gritam \u201cordem!\u201d independente do qu\u00e3o justo \u00e9 um protesto, \u00e9 uma boa imagem para essa deturpa\u00e7\u00e3o. Nesse esfor\u00e7o de auto-manuten\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental que seja respeitada uma estrutura de mando e de obedi\u00eancia que fica clara na diferen\u00e7a que tem entre o presidente e a faxineira servidora p\u00fablica.<\/p>\n<p>Nos perdoem por ainda estarmos trabalhando em termos bastante abstratos. Uma aproxima\u00e7\u00e3o com uma teoria cr\u00edtica do Estado contextualizada historicamente \u00e9 poss\u00edvel de ser feita olhando para a rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria dele com o capitalismo. O Estado exerce no capitalismo o papel de garantidor da domina\u00e7\u00e3o de classe ao servir como agente coercitivo de manuten\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado. Essa \u00e9 uma longa discuss\u00e3o, mas, tentando tornar mais simples o complexo, podemos dizer que no capitalismo a propriedade privada \u00e9 central porque possibilita a domina\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o possuem os meios de fazer as coisas. O trabalhador que n\u00e3o possui os meios de produzir \u00e9 dominado de forma n\u00e3o pessoal, j\u00e1 que como n\u00e3o possui a propriedade tem que se submeter ao trabalho assalariado. A garantia dessa propriedade n\u00e3o \u00e9 exercida pelo dominador, mas \u00e9 cedida ao Estado. Focando essa explica\u00e7\u00e3o no que mais nos interessa, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a exist\u00eancia do Estado como uma inst\u00e2ncia separada da sociedade depende das rela\u00e7\u00f5es capitalistas e serve para mant\u00ea-la. Para tanto o Estado deixa sempre presente a amea\u00e7a de recorrer \u00e0 viol\u00eancia para que a reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo ocorra. Somente a ele cabe a viol\u00eancia leg\u00edtima e essa \u00e9 uma amea\u00e7a que paira sobre todos aqueles que questionam as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE onde ficamos n\u00f3s nessa abstra\u00e7\u00e3o toda? Nos cabe o papel de cidad\u00e3os \u2013 mais uma abstra\u00e7\u00e3o. Nossas particularidades, nossos jeitos, nossos cheiros s\u00e3o esquecidos para que o Estado consiga nos controlar com suas pol\u00edticas p\u00fablicas. Para eles somos n\u00fameros que ganham caracter\u00edsticas mais definidas se tivermos dinheiro e boas rela\u00e7\u00f5es. Um juiz n\u00e3o olha do mesmo jeito para o negro e para o filho do seu amigo do golfe. Para n\u00f3s cabe somente o papel de votar a cada quatro anos, porque qualquer tentativa de tornar a pol\u00edtica cotidiana pode ser considerada perigosa. Votamos e escolhemos \u201crepresentantes\u201d. Mesmo que eles quisessem n\u00e3o conseguiriam nos representar, pois n\u00e3o existe essa massa indefinida chamada \u201celeitores\u201d. Existem pessoas d\u00edspares e mut\u00e1veis que ao escolher um candidato nunca poder\u00e3o saber como ele ir\u00e1 atuar nos pr\u00f3ximos quatro anos em quest\u00f5es t\u00e3o variadas quanto as que um governante manda. Ou seja, a elei\u00e7\u00e3o \u00e9 mais uma mentira para nos dar a impress\u00e3o de que temos alguma escolha em um mundo baseado justamente no controle das nossas vontades.<\/p>\n<p><em>Em busca da autonomia<\/em><\/p>\n<p>Nessa configura\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa o Estado se separa do social virando uma institui\u00e7\u00e3o que tenta monopolizar o pol\u00edtico. S\u00f3 se fala de pol\u00edtica nas elei\u00e7\u00f5es e n\u00f3s nos negamos a isso. Defendemos a autonomia, ou seja, que as pessoas se envolvam diretamente na organiza\u00e7\u00e3o das suas vidas cotidianas. Isso como indiv\u00edduos e como coletividades. A pessoa se forma no seu estar no mundo e nas suas intera\u00e7\u00f5es, portanto nunca deve ser pensado isoladamente. Aqui inserimos a dimens\u00e3o social da autonomia. Para a sua realiza\u00e7\u00e3o em um mundo institu\u00eddo de forma a fortalecer as domina\u00e7\u00f5es como o nosso \u00e9 importante ressaltar a capacidade instituinte das a\u00e7\u00f5es coletivas. As coletividades conseguem sim mudar a realidade. Detr\u00e1s do que a\u00ed est\u00e1 e parece t\u00e3o s\u00f3lido, existe sempre o pulsar criativo.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa potencia criadora que nos confiamos ao pensar como transformar o mundo. O que fazer para mudar o mundo? Romp\u00ea-lo de tantas formas quanto pudermos e tentar expandir e multiplicar as fissuras e promover a sua conflu\u00eancia; assim nos disseram e nos parece fazer sentido. Um milh\u00e3o de picadas de abelhas. A emancipa\u00e7\u00e3o depende da recusa, do desobedecer. Por\u00e9m n\u00e3o estamos apenas nos distanciando das estruturas de poder, estamos criando novas pr\u00e1ticas cotidianas. O N\u00e3o deve ser seguido por um outro-fazer, uma outra atividade que nos torne ativos.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dessas fissuras nega a ideia de pureza, ou seja, elas est\u00e3o permeadas por contradi\u00e7\u00f5es. A no\u00e7\u00e3o de autonomia muitas vezes defende uma externalidade radical para com o Estado e o capitalismo, por\u00e9m isso \u00e9 problem\u00e1tico por n\u00e3o dar conta das complexidades da nossa realidade. Cria-se dessa forma uma dicotomia entre autonomia e institucionaliza\u00e7\u00e3o que se baseia em estados ideais imposs\u00edveis de serem estabelecidos. A simples marginaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente para mudar o mundo porque pode servir de alguma forma para as estruturas opressivas. Al\u00e9m disso, muitas vezes as fissuras s\u00e3o atividades em tempo parcial que s\u00e3o intercaladas com a dura necessidade de vender a for\u00e7a de trabalho para garantir a sobreviv\u00eancia. Paradoxo? Infelizmente a vida est\u00e1 cheia deles. Por\u00e9m, isso n\u00e3o significa se curvar, pois mesmo quando seja lun\u00e1tico continuaremos exigindo o<br \/>\nimposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Sabemos que o contato com o Estado nos faz adotar certos modos de rela\u00e7\u00f5es sociais que refor\u00e7am as caracter\u00edsticas opressivas elencadas acima. As leis fazem parte da coes\u00e3o social capitalista e de sua racionalidade, portanto, invariavelmente seremos considerados criminosos. Isso n\u00e3o nos paralisa e nem tampouco faz com que buscamos sempre realizar a\u00e7\u00f5es ilegais, pois sabemos que acima de tudo essa \u00e9 uma quest\u00e3o de escolha t\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 deve estar claro n\u00e3o se trata de conquistar o Estado nem com armas nem com votos. N\u00e3o vamos cometer o mesmo erro de achar que o Estado pode ser um instrumento neutro para facilitar as transforma\u00e7\u00f5es. Ele \u00e9 a maneira errada de fazer as coisas e a boa vontade nunca conseguir\u00e1 superar isso. A instru\u00e7\u00e3o na conquista do poder inevitavelmente se converte em uma instru\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio poder. Vemos cotidianamente os partidos e candidatos mais bem intencionados fazerem concess\u00f5es absurdas para garantir o sucesso pr\u00f3prio. Esse \u00e9 um caminho de dif\u00edcil retorno. A centralidade do Estado na transforma\u00e7\u00e3o faz com que se reforce cada vez mais a soberania do Estado. Um dos motivos que justifica essa defesa \u00e9 que existe um grande peso das estruturas e das formas de comportamento herdadas. Outros fatores que podemos apontar s\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios estatais que tendem a se manter assim e as press\u00f5es para assegurar a economia \u2013 que geralmente n\u00e3o \u00e9 considerada como deveria, ou seja, como um sistema de explora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos interessam os partidos pol\u00edticos, pois a transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos olhos do Estado ou de uma organiza\u00e7\u00e3o centrada no Estado s\u00f3 pode ser feita em nome de outros, para o \u201cbenef\u00edcio das pessoas\u201d, n\u00e3o uma transforma\u00e7\u00e3o feita pelas pr\u00f3prias pessoas. Por\u00e9m isso \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o em que alguns mandam e outros obedecem \u2013 justamente do que queremos nos afastar \u2013 porque agir em benef\u00edcio de algu\u00e9m envolve invariavelmente um grau de repress\u00e3o da autonomia desses sujeitos.<\/p>\n<p>Se trata, portanto, de uma transforma\u00e7\u00e3o da vida cotidiana em um caminho que n\u00e3o ter\u00e1 fim, mas que se esfor\u00e7ar\u00e1 sempre por terminar as opress\u00f5es. Essa \u00e9 a \u00fanica maneira de manter em uso o conceito de revolu\u00e7\u00e3o, pois os que se centram no Estado demonstraram qu\u00e3o facilmente a ditadura pode esquecer do proletariado. No lugar de um grande acontecimento, pensamos em um longo processo. Ela \u00e9, portanto, uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o-instrumental, n\u00e3o \u00e9 um meio para chegar a um fim, j\u00e1 que todo o caminho \u00e9 igualmente importante. Essa \u00e9 tamb\u00e9m uma transforma\u00e7\u00e3o sem certezas, pois n\u00e3o existe nada no mundo que garanta seu triunfo, ela depende de um eterno esfor\u00e7o dos seus sujeitos. Isso implica em uma constante auto-cr\u00edtica para garantir que o caminho que est\u00e1 sendo constru\u00eddo leve realmente para mais perto da autonomia.<\/p>\n<p>Terminamos agradecendo a todos aqueles que j\u00e1 disseram e vivenciaram antes de n\u00f3s as mesmas coisas: os autonomistas, os anarquistas e, principalmente, os sem identidades de todas as partes do mundo.<br \/>\nE a pergunta que fica depois disso tudo \u00e9: por que continuar se contentando em votar no menos pior?<br \/>\nAA (Aut\u00f4nomos An\u00f4nimos)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retirado de Recife-Resiste: 01 de outubro de 2014 Em quem voc\u00ea vai votar? Chegados os tempos de elei\u00e7\u00e3o, nos esfor\u00e7amos para organizar os nossos pensamentos para explicar os motivos dessa pergunta n\u00e3o nos fazer o menor sentido. 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