{"id":1208,"date":"2014-06-04T02:19:44","date_gmt":"2014-06-04T00:19:44","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1208"},"modified":"2014-06-04T02:19:44","modified_gmt":"2014-06-04T00:19:44","slug":"noites-brancas-e-ceus-estrelados-a-copa-do-mundo-no-brasil-e-os-saltos-internacionais-da-insurreicao-desde-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1208","title":{"rendered":"Noites Brancas e c\u00e9us estrelados.  A Copa do Mundo no Brasil e os saltos internacionais da insurrei\u00e7\u00e3o. Desde Fran\u00e7a."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1211\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/06\/images.jpg\" alt=\"images\" width=\"299\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/06\/images.jpg 299w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/06\/images-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/p>\n<p><strong>Noites Brancas e c\u00e9us estrelados.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Copa do Mundo no Brasil e os saltos internacionais da insurrei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nota de Cumplicidade:<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Esse texto foi escrito por companheirxs desde a Fran\u00e7a para alimentar uma solidariedade \u201canti- copa\u201d em cada canto do mundo. Agradecemos xs compas pela sua for\u00e7a, essas palavras s\u00e3o mais um incentivo para, apesar do clima tenso que se vive neste territ\u00f3rio controlado (e muito mais agora) pelo estado brasileiro, n\u00e3o paralisarmos frente ao medo difundido pelas milhares de c\u00e2meras vigiando-nos, e pelos pe\u00f5es que o estado colocou em cada esquina das cidades. Atacar ser\u00e1 muito dif\u00edcil e temos que estar preparados para uma repress\u00e3o do tamanho da prepot\u00eancia do governo, mas, ao mesmo tempo, sabemos que \u00e9 necess\u00e1rio manter-se na ofensiva, buscando sempre estar um passo adiante do inimigo&#8230; Tamb\u00e9m, temos de ressaltar que a ofensiva anarquista que se vem construindo nesse territ\u00f3rio, n\u00e3o come\u00e7ou, nem terminar\u00e1, nem est\u00e1 exclusivamente relacionada com a copa do mundo de futebol. Esse \u00e9 mais um mega-projeto de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as do poder e que aproveita para fazer uma limpeza social e \u00e9tnica, acelerando os processos planejados por aqueles que se beneficiam com toda essa desgra\u00e7a; no caso, os realizadores de tal evento, seus patrocinadores, apoiadores, pol\u00edticos, empres\u00e1rios e empreiteiros, enfim, uma consider\u00e1vel lista de alvos. <\/em><\/p>\n<p><em>Muita for\u00e7a nessas pr\u00f3ximas semanas de intensifica\u00e7\u00e3o da luta por estes lados.<\/em><\/p>\n<p><em>Todo dia \u00e9 mais um dia de guerra.<\/em><\/p>\n<p><em>Aproveitemo-los a todos.<\/em><\/p>\n<p>Noites Brancas e c\u00e9us estrelados.<\/p>\n<p>A Copa do Mundo no Brasil e os saltos internacionais da insurrei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A copa do mundo n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de futebol. Se um pa\u00eds \u00e9 candidato para a organiza\u00e7\u00e3o desse evento \u00e9 porque o futebol cumpre hoje a mesma fun\u00e7\u00e3o que o espet\u00e1culo dos gladiadores da Roma Antiga, mas tamb\u00e9m porque \u00e9 uma ocasi\u00e3o inesperada para o Estado organizador de fazer avan\u00e7ar a passo de gigante o seu desenvolvimento econ\u00f4mico e seu brilho pol\u00edtico. A copa tem um custo monstruoso, por\u00e9m o retorno do investimento promete quase de golpe certeiro, de ser bem sucedido. O Brasil, considerado como umas das grandes pot\u00eancias econ\u00f4micas mundiais, conta com uma ascens\u00e3o organizando a Copa e as Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>A copa do mundo \u00e9 tamb\u00e9m um projeto do poder para apagar tens\u00f5es sociais e dar o espet\u00e1culo da sua adora\u00e7\u00e3o. Para as entidades estatais e os interesses econ\u00f4micos \u00e9 uma ocasi\u00e3o de criar as condi\u00e7\u00f5es para abrir novos mercados, para calar a boca de varias resist\u00eancias e para realizar um pulo qualitativo na ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e na explora\u00e7\u00e3o capitalista. \u00c9 a grande missa moderna do Estado e do Capital, onde a arrog\u00e2ncia do poder se exibe no espet\u00e1culo dos est\u00e1dios, das massas arrebanhadas, telas e programas ao vivo e do orgulho nacional. A concess\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da copa do mundo 2014 ao Estado brasileiro tem significado uma intensifica\u00e7\u00e3o imediata e sistem\u00e1tica da militariza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o da \u201cpaz social\u201d.<\/p>\n<p>Criadas sobre o modelo das tristemente celebres \u201copera\u00e7\u00f5es de pacifica\u00e7\u00e3o\u201d, novas unidades de policia viram a luz do dia, as Unidades de Policia Pacificadora (UPP), implementadas desde 2008 nas dezenas de bairros dif\u00edceis e de favelas de Rio de Janeiro. Em nome da guerra contra o trafico de droga, o Estado retomou de maneira militar o controle dos bairros. No espa\u00e7o de quatro anos, segundo as cifras oficiais, apenas no Rio, mais de 5500 pessoas teriam sido assassinadas pela policia. Nos bairros onde as quadrilhas de traficantes foram ca\u00e7ados, paramilitares fazem chover ou brilhar.<\/p>\n<p>Mas a Copa do Mundo n\u00e3o se sust\u00e9m evidentemente somente do \u00fanico aspecto em uniforme. Para uma soma superando os 3500 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, est\u00e1dios foram constru\u00eddos em lugares estrat\u00e9gicos das cidades. Favelas foram expulsas e destru\u00eddas para construir novos bairros de classe media, centros comerciais, hot\u00e9is de luxo e planejamento para as praias. Eixos de transporte e autopistas foram replanejadas e protegidas; aeroportos, portos e redes de eletricidade foram constru\u00eddas ou reconstru\u00eddas.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, 250\u00a0000 pessoas foram expulsas das suas moradias com o objetivo de dar espa\u00e7o a projetos de constru\u00e7\u00e3o vinculados \u00e0 Copa do Mundo de 2014 e aos jogos Ol\u00edmpicos de 2016. A justi\u00e7a brasileira n\u00e3o escondeu suas inten\u00e7\u00f5es a respeito aos seus planos para o futuro de todos estes est\u00e1dios que servir\u00e3o, na sua grande maioria, somente para acolher alguns partidos: estudos se est\u00e3o fazendo para examinar como os novos est\u00e1dios em Manaus, Bras\u00edlia, Cuiab\u00e1 e Natal poderiam ser transformados em pris\u00f5es. A copa do Mundo \u00e9 ent\u00e3o uma opera\u00e7\u00e3o de purifica\u00e7\u00e3o social. O Estado e o Capital se desfazem dos indesej\u00e1veis, de essas capas da popula\u00e7\u00e3o que se voltaram desnecess\u00e1rias na circula\u00e7\u00e3o mercantil e que podem se tornar somente fontes de problemas. Seria, por\u00e9m, um erro considerar essa opera\u00e7\u00e3o como uma \u201cexce\u00e7\u00e3o\u201d que somente a democracia legitima atrav\u00e9s da Copa do Mundo: se trata de fato de uma reestrutura\u00e7\u00e3o, de uma intensifica\u00e7\u00e3o do controle social e da explora\u00e7\u00e3o. Copa do Mundo ou crise, guerra ou reconstru\u00e7\u00e3o, desastres naturais ou urg\u00eancias&#8230; o poder nos faz enxergar \u201csitua\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o\u201d que s\u00e3o, na realidade, o cora\u00e7\u00e3o mesmo do progresso capitalista e estatal. A Missa Solene da Copa do Mondo abre todos os mercados imagin\u00e1veis. E isso n\u00e3o se trata somente da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria ou da ind\u00fastria da seguran\u00e7a. H\u00e1 meses, camponeses avisam que caminh\u00f5es cheios de coca\u00edna v\u00e3o e v\u00eam desde Col\u00f4mbia para responder \u00e0s \u201cnecessidades\u201d dos tr\u00eas bilh\u00f5es de turistas esperados. Como durante a Copa do Mundo na \u00c1frica do Sul em 2010, a prostitui\u00e7\u00e3o se desenvolver\u00e1 de maneira vertiginosa. Nas obras dos est\u00e1dios, onde muitos obreiros imigrantes trabalham em condi\u00e7\u00f5es particularmente dif\u00edceis, as empresas os chicoteiam para conseguir cumprir os prazos. Sem esquecer as diferentes fra\u00e7\u00f5es do poder no Brasil, que negociam e concluem acordos com o governo: quadrilhas de traficantes se encarregam do trabalho sujo de expulsar pessoas que resistem demasiado aos programas de urbaniza\u00e7\u00e3o enquanto paramilitares s\u00e3o empregados por empresas para assegurar a seguran\u00e7a nas obras e esmagar as greves ou os protestos com chantagem e assassinatos. Mas, a novidade, n\u00e3o \u00e9 todo esse horror. A novidade \u00e9, como, em junho 2013, o Brasil esteve em chamas durante quase um m\u00eas. O que come\u00e7ou como um movimento contra a subida dos pre\u00e7os da passagem de \u00f4nibus se tornou uma revolta descontrolada e generalizada contra o poder. Desde esse m\u00eas de revolta, tem cada vez mais conflitos no redor das expuls\u00f5es, de resist\u00eancias contra os planos de austeridades, de protestos contra os assassinatos nas m\u00e3os dos policiais, ou mesmo, de protestos antipatri\u00f3ticos como durante a festa nacional do 7 de setembro, etc., que t\u00eam degenerado e escaparam do controle da media\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cl\u00e1ssica. Esses \u00faltimos meses, uma imagina\u00e7\u00e3o social nasceu no Brasil que poderia amanha de novo, incendiar as ruas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Enquanto na S\u00edria, o poder e os seus concorrentes buscam parar a onda de rebeli\u00e3o e revoltas que contaminam cada vez mais regi\u00f5es do mundo e fundi-la num banho de sangue; enquanto na Gr\u00e9cia, a popula\u00e7\u00e3o se v\u00ea sobrecarregada e aterrorizada para apagar a mem\u00f3ria da insurrei\u00e7\u00e3o de dezembro de 2008; enquanto na Ucr\u00e2nia, uma revolta popular se v\u00ea esmagada por um jogo macabro entre diferentes fra\u00e7\u00f5es do poder; enquanto no Egito, Turquia, B\u00f3snia, L\u00edbia, etc., a ordem parece estar se reorganizando e se restabelecendo, a Copa do Mundo no Brasil se apresenta como uma tentativa de pintar com uma capa de chumbo as contradi\u00e7\u00f5es sociais que atravessam toda America Latina. Tomando diferentes formas segundo os contextos e as condi\u00e7\u00f5es, uma reestrutura\u00e7\u00e3o do Capital e do Estado esta no curso em todo lugar do mundo.<\/p>\n<p>As fronteiras nacionais revelam ser mais que nunca o que sempre foram: grades e muros para gerar a revolta potencial dos deserdados. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma casualidade se, frente \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o manifesta-se entre as diferentes revoltas dos \u00faltimos anos uma contamina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 realmente baseada em condi\u00e7\u00f5es similares, mas sobre uma nova imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o mediada, da possibilidade de se rebelar, de outra vida. O Estado se apoia sobre o nacionalismo e os sentimentos reacion\u00e1rios: movimentos fascistas em ascens\u00e3o no continente europeu, a renova\u00e7\u00e3o do patriotismo em pa\u00edses que conheceram \u201cprimaveras \u00e1rabes\u201d, anti-imperialismo falso de antigos dirigentes como Ch\u00e1vez at\u00e9 a febre por times nacionais de futebol. Mas em vez de detalhar os movimentos internacionais da rea\u00e7\u00e3o, enfoquemo-nos sobre os da revolta e das possibilidades que eles abrem. Durante a revolta de junho de 2013 no Brasil, os insurgentes gritaram: \u201cdepois da Gr\u00e9cia, depois da Turquia, agora \u00e9 a vez do Brasil!\u201d As revoltas que n\u00f3s conhecemos esses \u00faltimos anos abriram a porta para acabar com o aqui e o l\u00e1. Os v\u00ednculos entre os diferentes estados nacionais em mat\u00e9ria de repress\u00e3o, seguramente, se refor\u00e7aram de maneira muito r\u00e1pida, mas isso n\u00e3o deveria nos surpreender ou nos assustar. Posto a instabilidade social crescente e o entrela\u00e7amento total das economias e dos sistemas estatais podemos imaginar que se algo acontece em algum lado, isso poderia ter consequ\u00eancias em outro lugar tamb\u00e9m. E esse movimento j\u00e1 est\u00e1 em curso na imagina\u00e7\u00e3o mesmo, esse solo particularmente f\u00e9rtil para a revolta. Trata-se agora de introduzir essa imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos nossos projetos de luta e colher as ocasi\u00f5es que se apresentem. N\u00e3o existe ci\u00eancia da insurrei\u00e7\u00e3o. Muitos exemplos recentes &#8211; dos motins em Londres em 2011 \u00e0s subleva\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe &#8211; nos mostram o car\u00e1ter imprevis\u00edvel da insurrei\u00e7\u00e3o. Os pretextos podem at\u00e9 serem muito \u201cbanais\u201d. Essa imprevisibilidade n\u00e3o deveria, por\u00e9m, nos puxar at\u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de espera do \u201cpr\u00f3ximo turno\u201d em algum lugar do mundo; isso afirma mais a necessidade de uma conflitualidade permanente, de uma prepara\u00e7\u00e3o em ideias e atos. \u00c9 somente assim que se poderia esperar n\u00e3o se encontrar prec\u00e1rios durante tais momentos: pouco importa onde estamos no planeta, poder\u00edamos tentar fazer contribui\u00e7\u00f5es qualitativas que puxam revoltas em curso numa dire\u00e7\u00e3o realmente emancipadora, que nos fazem golpear as estruturas fundamentais da domina\u00e7\u00e3o moderna e da sua reprodu\u00e7\u00e3o, das estruturas que se encontram atr\u00e1s das fileiras de policiais e das vidra\u00e7as dos bancos.<\/p>\n<p>Ressaltar o car\u00e1ter imprevis\u00edvel da insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa pretender que caia da lua. Trata-se somente de precisar que podem existir tens\u00f5es que indicam possibilidades crescentes de revoltas, mas que n\u00e3o tem nenhuma certid\u00e3o quanto em saber se essas possibilidades se voltar\u00e3o realidades. Ao contrario, podem existir contextos ou conflitos que n\u00e3o deixam para nada perceber a explos\u00e3o da pr\u00f3xima revolta e que fazem, portanto, pular a tampa da panela. A imprevisibilidade da insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria, por\u00e9m, ser um problema maior para os anarquistas que se enfrentam continuamente contra a autoridade, \u00e9 um problema maior para o Estado. Se analisarmos os investimentos massivos que s\u00e3o feitos na escala internacional no controle e nos m\u00e9todos repressivos, n\u00e3o parece que o Estado seja completamente inconsciente de esse ponto fraco. A insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um jogo de v\u00ednculos desconhecidos e de atos imprevistos. N\u00e3o \u00e9 uma matem\u00e1tica onde presen\u00e7as num\u00e9ricas apontam a resposta definitiva. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201csolidariedade exterior\u201d que aplaude a revolta do outro. Cada contexto e cada momento oferecem possibilidades e oportunidades diferentes<strong>. Os anarquistas devem se dar o tempo de analisar os conhecimentos e os m\u00e9todos para passar \u00e0 ofensiva e atacar.<\/strong> Devemos tamb\u00e9m procurar aprender, dentro de nossas analises como dentro de nossas praticas, das experi\u00eancias insurrecionais. O tempo da domina\u00e7\u00e3o vai sempre mais r\u00e1pido e faz se apagar a mem\u00f3ria das revoltas. As insurrei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o podem ser consideradas como etapas num desenvolvimento linear at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o social. S\u00e3o mais momentos de rupturas durante os quais o tempo e o espa\u00e7o escapam de maneira ef\u00eamera ao alcance da domina\u00e7\u00e3o. Posto o crescimento da repress\u00e3o &#8211; o fato que a autoridade est\u00e1 sempre disposta a fundir no sangue a insurrei\u00e7\u00e3o dos oprimidos &#8211; e a confus\u00e3o aparente das motiva\u00e7\u00f5es de numerosas pessoas durante os momentos contempor\u00e2neos de revolta, alguns recuam diante da perspectiva insurrecional. E ainda, \u00e9 precisamente a insurrei\u00e7\u00e3o que quebra o afogamento do controle e da repress\u00e3o num mundo onde a extermina\u00e7\u00e3o de massa e o massacre organizado j\u00e1 s\u00e3o a rotina cotidiana do Estado e do Capital. \u00c9 precisamente a insurrei\u00e7\u00e3o que pode criar o espa\u00e7o que permite traduzir seu recha\u00e7o e a sua revolta nas ideias mais claras e mais firmes.<\/p>\n<p>O medo do car\u00e1ter imprevis\u00edvel e incontrol\u00e1vel da insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra somente do lado da ordem, mas tamb\u00e9m do lado dos revolucion\u00e1rios que buscam o saludo na repeti\u00e7\u00e3o de velhas receitas pol\u00edticas: em vez do ataque em todo lado e todo o tempo, a constru\u00e7\u00e3o de um movimento revolucion\u00e1rio unificado, em vez da insurrei\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento gradual de um \u201ccontra-poder\u201d; em vez da destrui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, a ilus\u00e3o de uma mudan\u00e7a progressiva das mentalidades. Vemos ent\u00e3o anarquistas que retomam o papel da esquerda moribunda ou dos ex-insurgentes que partem em busca de certezas nas elucubra\u00e7\u00f5es sobre o \u201csujeito hist\u00f3rico do proletariado\u201d ou ainda se p\u00f5em a ler obras de um L\u00eanin para encontrar receitas de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o vitoriosa\u201d.<\/p>\n<p>As recentes experi\u00eancias insurrecionais assinalam todas, a necessidade de encontrar novos caminhos, caminhos que se separam radicalmente e definitivamente de toda vis\u00e3o do \u00ab\u00a0pol\u00edtico\u00a0\u00bb da guerra social. A perspectiva revolucionaria cl\u00e1ssica da autogest\u00e3o esta morta. J\u00e1 \u00e9 tempo de tomar definitivamente ato e de por um fim \u00e0s tentativas de ressuscit\u00e1-la sob outras palavras e outras formas. Nenhuma estrutura do capital ou do estado pode ser retomada para que a usemos de maneira emancipadora; nenhuma categoria social \u00e9 por ess\u00eancia quem leva um projeto de transforma\u00e7\u00e3o social; nenhuma batalha defensiva vai se transformar em uma ofensiva revolucionaria.<\/p>\n<p>O paradoxo contempor\u00e2neo para enfrentar reside na observa\u00e7\u00e3o de que, por um lado, a insurrei\u00e7\u00e3o precisa de um sonho de liberdade que lhe de oxigeno para preservar e do outro, sua obra tem que ser necessariamente totalmente destrutiva para ter uma esperan\u00e7a de superar a extin\u00e7\u00e3o e o enkystamento. A insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso para limpar o caminho at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o individual e social; e s\u00e3o as vitaminas da utopia que for\u00e7am horizontes inesperados para escapar \u00e0 pris\u00e3o social. \u00c9 a partir da conflu\u00eancia entre uma pratica insurrecional e ideias de liberdade, que uma perspectiva revolucionaria contempor\u00e2nea pode nascer. O car\u00e1ter destrutivo da insurrei\u00e7\u00e3o trata da destrui\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio da pris\u00e3o social na qual vivemos todas e todos. \u00c9 preciso estudar e analisar onde se encontram hoje, os muros, os seus guardas, seus vigilantes se nos propomos golpea-los. A domina\u00e7\u00e3o moderna divulgou em todo lugar estruturas que permitem a reprodu\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o social. Pensem nas infraestruturas tecnol\u00f3gicas onipresentes que nos atam todos e todas ao papel do preso sem que elas tenham cadeias vis\u00edveis. Ou como a acumula\u00e7\u00e3o capitalista se orienta fundamentalmente na dire\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Europa em todo caso, a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se concentra mais como antes nas grandes fortalezas, mas se estendeu e descentralizou englobando todos os aspectos da vida. As conex\u00f5es entre esses aspectos est\u00e3o asseguradas por caminhos, cabos, caminhos de ferros, condutos subterr\u00e2neos que representam as veias da domina\u00e7\u00e3o. <strong>N\u00e3o seremos os \u00faltimos em gritar de alegria se insurgentes colocam fogo no parlamento em algum lugar no mundo, mas as contribui\u00e7\u00f5es anarquistas \u00e0 guerra social consistem sem duvida tamb\u00e9m em indicar e atacar mais precisamente como e onde a autoridade se nutre e se reproduz. <\/strong><\/p>\n<p>Mas a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta. O ato e o pensamento devem caminhar lado a lado. N\u00e3o podemos esperar arrasar os muros da pris\u00e3o social se n\u00e3o tratamos j\u00e1 de olhar por cima do que nos tapa a vis\u00e3o, at\u00e9 horizontes desconhecidos, mesmo sendo isso dif\u00edcil. N\u00e3o podemos pensar livremente nas sombras de uma capela. E exato. Mas a capela n\u00e3o \u00e9 somente um edif\u00edcio, \u00e9 uma materializa\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos sociais e das ideologias dominantes. \u00c9, desejando o que esses v\u00ednculos e ideologias n\u00e3o oferecem, o que eles apagam do ordin\u00e1rio, o que eles suprimem na pensabilidade mesmo, que n\u00f3s nos encontraremos enfrentando o existente.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos dum en\u00e9simo programa para planificar a transforma\u00e7\u00e3o do mundo, n\u00e3o mais que experi\u00eancias alternativas que plantariam as sementes da anarquia de amanha. N\u00e3o! O que nos falta, \u00e9 a proje\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos em um ambiente completamente outro, de sonhos. \u00c9 somente deixando atr\u00e1s o realismo que reivindica uma nova capa de pintura para as nossas celas, passeios mais longos, mais atividades&#8230; que podemos esperar nos encontrar sonhando de novo, pondo palavras sobre os nossos desejos, essas palavras indispens\u00e1veis para exprimir e comunicar uma perspectiva revolucionaria. O mundo deixa perceber o que pode ser feito, devemos fazer o que n\u00e3o pode ser feito. Fazer de novo da tens\u00e3o \u00e9tica anarquista frente ao que nos rodeia, o ferro da lan\u00e7a de nosso combate pela liberdade. N\u00e3o deixar degenerar a anti-autoridade em uma postura pol\u00edtica, mas a deixar queimar como uma coisa que nos anima no cotidiano, algo que nos p\u00f5e \u00e9brio de desejos e incontrol\u00e1veis em pensamentos como em atos. Continuar a partir do individuo, da individualidade aut\u00f4noma capaz de refletir, sonhar e atuar, em todos lados e sempre, em momentos de agita\u00e7\u00e3o social como de rea\u00e7\u00e3o sangrentas, contra ventos e mar\u00e9s do conformismo e das avalia\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas. O cora\u00e7\u00e3o de um tal anarquismo impetuoso \u00e9 tamb\u00e9m o n\u00facleo de futuras perspectivas revolucionarias.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem duvida ainda. O Estado tamb\u00e9m n\u00e3o. A copa do mundo no Brasil n\u00e3o acontecer\u00e1 sem problemas, como os projetos de purifica\u00e7\u00e3o social no pa\u00eds do Amazonas se topar\u00e3o a uma resist\u00eancia inesperada que n\u00e3o se deixar\u00e1 t\u00e3o facilmente desarmar. O governo brasileiro se permitiu anunciar que mobilizar\u00e1 160.000 policiais e militares para manter a ordem durante a grande missa, refor\u00e7ados por algumas dezenas de milhares de agentes de seguran\u00e7a privada, nesse momento mesmo, em forma\u00e7\u00e3o em todo lugar do mundo. Todos os Estados acentuam sua propagando para seu time nacional e preparam a entrada massiva de turistas e de moeda estrangeira, esse outro declive da guerra capitalista. Preparam-nos uma homenagem planet\u00e1ria ao poder e ao esmagamento da revolta. A Copa do Mundo se materializa sobre uma quantidade de terrenos que s\u00e3o tamb\u00e9m poss\u00edveis pistas de ataques. Nos bairros das metr\u00f3poles brasileiras, se toma a forma de uma purifica\u00e7\u00e3o urban\u00edstica e militar realizada por empresas internacionais de constru\u00e7\u00e3o, oficinas de arquitetos de todo lugar e mastodontes da tecnologia. Os emblemas nacionais inundaram as ruas, os patrocinadores comerciais bombardear\u00e3o o planeta inteiro com propagandas, a m\u00eddia assegurar\u00e1 programas ao vivo do espet\u00e1culo da aliena\u00e7\u00e3o. As empresas de seguran\u00e7a e as oficinas de consultoria se apressar\u00e3o no port\u00e3o das autoridades com modelos modernos de combate anti- insurrecional nas necr\u00f3poles, enquanto uma tela de malha estreitada de tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o permite um controle diversificado.<\/p>\n<p>A maquinaria da Copa do Mundo se comp\u00f5e de inomin\u00e1veis engrenagens que s\u00e3o estreitamente ligados e interdependentes: a cada um, em qualquer lugar do mundo, estudar que engrenagens s\u00e3o suscet\u00edveis de perturbar e de paralisar a maquinaria. \u201cN\u00e3o vai ter Copa\u201d. Numerosos revoltados no Brasil se preparam a transformar a Copa do Mundo em um pesadelo para o Estado e em uma tocha de insurrei\u00e7\u00e3o para os amantes da liberdade. Essa tocha n\u00e3o deveria queimar somente no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo ou Porto Alegre, tomemos a ocasi\u00e3o para iluminar em todo lugar a escurid\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PDF em portugu\u00eas: <a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/06\/Noites-Brancas-e-c\u00e9us-estrelados.pdf\">Noites Brancas e c\u00e9us estrelados<\/a><\/p>\n<p>PDF em franc\u00eas: <a href=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/06\/nuitsblanches.pdf\">nuitsblanches<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noites Brancas e c\u00e9us estrelados. 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