{"id":1015,"date":"2014-03-13T03:09:54","date_gmt":"2014-03-13T02:09:54","guid":{"rendered":"http:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1015"},"modified":"2014-03-13T03:09:54","modified_gmt":"2014-03-13T02:09:54","slug":"portugal-antonio-ferreira-de-jesus-1940-2013","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/?p=1015","title":{"rendered":"Portugal: Ant\u00f3nio Ferreira De Jesus 1940-2013"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1016\" alt=\"\u00edndice\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/\u00edndice.jpg\" width=\"177\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/\u00edndice.jpg 177w, https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/\u00edndice-93x150.jpg 93w\" sizes=\"auto, (max-width: 177px) 100vw, 177px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>52 anos de sequestro estatal!\u2026<\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>Ant\u00f3nio Ferreira de Jesus, natural de Oliveira do Bairro, nasceu a 30 de Outubro de 1940 e faleceu a 6 de Novembro de 2013. Dos seus 73 anos de idade, passou 52 anos na pris\u00e3o em Portugal, caso in\u00e9dito na Europa. Apenas esteve 21 anos fora de muros.\u00a0 Ou seja, sofreu 52 anos de sequestro estatal!\u2026<\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Ant\u00f3nio nasceu no seio da mis\u00e9ria econ\u00f3mica, na qual viu morrer dois irm\u00e3os de tenra idade: um por fome; outro por falta de aten\u00e7\u00e3o e cuidados m\u00e9dicos. Inconformado com as desigualdades sociais e com o terr\u00edvel terrorismo que constitui a viol\u00eancia econ\u00f3mica, op\u00f4s- se ao roubo da vida \u2013 o salariato imposto pelo dom\u00ednio \u2013 e come\u00e7ou a expropriar a classe dominante, tentando reapropriar-se da sua vida, preferindo antes o risco que acarreta a expropria\u00e7\u00e3o do que humilhar-se a mendigar ou sujeitar-se a um vil sal\u00e1rio. Defendeu a sua m\u00e3e dos maus tratos do seu pai ao op\u00f4r-se energicamente a este quando mais uma vez a agredia, o que, a partir de ent\u00e3o, nunca mais voltou a acontecer. Aos 17 anos de idade foi lan\u00e7ado para a pris\u00e3o.\u00a0 Depois de cumprir a condena\u00e7\u00e3o, obrigaram-no a cumprir uma c\u00e9lebre medida correcional\u00a0 fascista na pris\u00e3o-escola de Leiria<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#note-3394-1\"><span style=\"color: #045f9f\"><sup><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">1<\/span><\/span><\/sup><\/span><\/a><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">. Junto a outros \u201cfilhos dos homens que nunca foram meninos\u201d, fica chocado com a opress\u00e3o a\u00ed existente. Em contacto com os presos pol\u00edticos na penitenci\u00e1ria de Lisboa, ganhou consci\u00eancia pol\u00edtica. Cumpriu treze anos de pris\u00e3o e sofreu 4 anos de isolamento e outros castigos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Ant\u00f3nio sa\u00edu da pris\u00e3o t\u00e3o revoltado que foi assaltar a pris\u00e3o-escola de Leiria, com o objectivo de libertar os presos e atear fogo \u00e0 pris\u00e3o. E porque n\u00e3o pagavam os sal\u00e1rios de uns trabalhadores, o seu sentimento de classe levou-o a\u00a0 queimar a f\u00e1brica onde estes trabalhavam, eliminando primeiro o guarda da f\u00e1brica em auto-defesa, ap\u00f3s uma luta corpo a corpo, antes que este o eliminasse. Realiza algumas expropria\u00e7\u00f5es. Tem a PIDE (pol\u00edcia pol\u00edtica do regime fascista) atr\u00e1s de si. Um irm\u00e3o, que teria participado no frustrado assalto \u00e0 pris\u00e3o-escola, chiba-o. \u00c9 condenado \u00e0 pena m\u00e1xima do c\u00f3digo penal de ent\u00e3o: 24 anos de pris\u00e3o e com \u201ca delinqu\u00eancia\u201d foi considerado de dif\u00edcil corre\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#note-3394-2\"><span style=\"color: #045f9f\"><sup><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">2<\/span><\/span><\/sup><\/span><\/a><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">. Com a Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de 1974, a pena passa a 12 anos de pris\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o de sair a metade da pena, ou seja, aos 6 anos de pris\u00e3o. Mas obrigaram-no, por ser um preso em luta, a cumprir a pena na sua quase totalidade; faltavam apenas uns meses para os doze anos quando o colocaram em liberdade condicional, dentro da qual, passado poucos meses, \u00e9 condenado a 18 meses de pris\u00e3o por posse de arma ilegal e com a respectiva condicional revogada. Em 1991 foi colocado em liberdade condicional quando lhe faltavam poucos meses para o fim da pena. Posteriormente, em 1994, \u00e9 condenado a 10 anos por expropria\u00e7\u00f5es, sendo, ainda no mesmo ano,\u00a0 condenado, conjuntamente com outros companheiros, a uma pena de 18 anos por sequestro e roubo a um famoso traficante de hero\u00edna.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1017 aligncenter\" alt=\"images2\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/images2.jpg\" width=\"382\" height=\"248\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Por onde passou deixou rasto: na pris\u00e3o-escola de Leiria, durante o regime fascista,\u00a0 participou em v\u00e1rios protestos contra o miser\u00e1vel rancho e a prepot\u00eancia. Na Penitenci\u00e1ria de Coimbra, depois do 25 de Abril de 1974,\u00a0 amotinou-se\u00a0 com outros presos durante semanas e esteve no cume da c\u00fapula da pris\u00e3o a comunicar para a popula\u00e7\u00e3o da rua atrav\u00e9s de um altifalante, ex-pondo os motivos do motim. De seguida, na pris\u00e3o de Pa\u00e7os de Ferreira, \u00e9 eleito presidente da associa\u00e7\u00e3o de reclusos. Ocorre um motim no qual \u00e9 morto um companheiro, que se encontrava a seu lado, por uma rajada de metralhadora. O Ferreira escapou por mil\u00edmetros. O guarda, autor da rajada, comentou que a rajada era para o Ferreira e n\u00e3o para o outro.\u00a0 \u00c9 transferido para a ent\u00e3o Col\u00f3nia Penal de Pinheiro da Cruz, onde \u00e9\u00a0 armazenado, em total isolamento, numa cela na Ala 1, ent\u00e3o desocupada, onde esteve mais de um ano s\u00f3.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>\u201cS\u00f3 faltou darem-me uma corda para me enforcar\u201d<\/b><\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">, palavras suas. Em 1976, ocorre um motim nessa\u00a0 Ala, j\u00e1 ocupada por mais presos. Os presos subiram para o telhado da Ala e muitos deles foram barbaramente espancados. No curso de dinamiza\u00e7\u00e3o que levava os presos a tomar consci\u00eancia de si mesmos e dos seus direitos, introduzido e leccionado ent\u00e3o em v\u00e1rias pris\u00f5es por pessoal de esquerda, com a total oposi\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es das pris\u00f5es, Ant\u00f3nio Ferreira \u00e9 considerado pelas autoridades um radical pelas suas opini\u00f5es e tomadas de posi\u00e7\u00e3o. A direita queixa-se e protesta nos meios de comunica\u00e7\u00e3o que os guardas \u00e9 que s\u00e3o castigados em vez dos presos e que as pris\u00f5es vivem em \u201canarquia\u201d. Em 1978 \u00e9 um dos principais organizadores da fuga feita por um t\u00fanel escavado ao longo de dezenas de metros de comprimento, por onde 123 presos (incluindo o Ferreira) se evadiram da pris\u00e3o de Vale de Judeus, para onde acabara de ser transferido desde Pinheiro da Cruz. \u00c9 capturado passado semanas. Seguem-se v\u00e1rios motins, planos de fuga, greves de fome, protestos, reivindica\u00e7\u00f5es e incont\u00e1veis (de t\u00e3o numerosas) den\u00fancias feitas aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e outros organismos, onde o seu nome se encontra associado, bem como castigos com o isolamento de toda a popula\u00e7\u00e3o prisional. Sofreu imensas transfer\u00eancias pela calada da noite, umas vezes para outras alas ou para celas disciplinares; outras vezes para outros isolamentos, com regime 111\u00ba<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#note-3394-3\"><span style=\"color: #045f9f\"><sup><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">3<\/span><\/span><\/sup><\/span><\/a><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">; outras vezes para outras pris\u00f5es como castigo informal e para desmobilizar lutas.\u00a0 O tratamento discriminat\u00f3rio e a m\u00e1-f\u00e9 sobre as papeladas relacionadas com o c\u00famulo jur\u00eddico de penas, pleno de irregularidades processuais, torturou-o profundamente, levando-o a uma situa\u00e7\u00e3o equivalente a uma condena\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua encapotada e deixando-o com todas as incertezas e esperan\u00e7as tiradas por terra.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1018 aligncenter\" alt=\"\u00edndice2\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/\u00edndice2.jpg\" width=\"356\" height=\"258\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Contudo, sempre se manteve firme perante o po\u00e7o sem fundo para onde o lan\u00e7aram. J\u00e1 quase com 70 anos de idade, na pris\u00e3o de Pinheiro da Cruz, recusou-se a mudar de Ala e disse aos carcereiros, com valentia e decididamente:<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>\u00a0\u201cDaqui n\u00e3o saio! Eu pelo meu p\u00e9 n\u00e3o saio! S\u00f3 saio \u00e0 for\u00e7a ou passando por cima do meu cad\u00e1ver!\u201d<\/b><\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Os mercen\u00e1rios ficaram estupefactos, mas a troco do vil sal\u00e1rio, cumpriram a ordem superior e levaram-no \u00e0 for\u00e7a, mas n\u00e3o pelo seu p\u00e9; levaram-no em maca, n\u00e3o para outra Ala, mas para o violento castigo de total isolamento (equivalente ao revogado, em 2009, regime 111\u00ba), no<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><i>Big Brother\u00a0<\/i><\/span><\/span><\/span><a href=\"#note-3394-4\"><span style=\"color: #045f9f\"><sup><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><i>4<\/i><\/span><\/span><\/sup><\/span><\/a><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">, a pris\u00e3o dentro da pris\u00e3o, separado rigorosamente de toda a popula\u00e7\u00e3o prisional, como repres\u00e1lia pela sua insubmiss\u00e3o. Entrou em greve de fome, de sede e de sil\u00eancio imediatamente. Uma greve de sil\u00eancio que implicou que nem uma palavra fosse dirigida ao inimigo: carcereiro ou quaisquer outros funcion\u00e1rios ligados ao Estado. Os carcereiros tentaram falar com ele, e nada: nenhuma resposta obtida; foi a assistente social, e nada; foi a educadora, e nada; foi a psic\u00f3loga, e nada; foi o enfermeiro, e nada; foi o m\u00e9dico, e nada; foi o psiquiatra, e nada.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>\u201cChega! \u00c9 imposs\u00edvel o di\u00e1logo com os opressores!\u201d<\/b><\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">, disse para si mesmo.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><b>\u201cO homem est\u00e1 louco!\u201d<\/b><\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">, afirmaram. \u201cN\u00e3o sabiam o que fazer\u2026 Andavam como baratas tontas, sem saber que decis\u00e3o tomar\u201d, observa\u00e7\u00e3o sua. Apenas aceitou falar com o seu \u00faltimo advogado, Jos\u00e9 Preto. Esta luta envelheceu-o muito e deixou-o muito debilitado a n\u00edvel de sa\u00fade. Depois de lhe roerem os ossos e a carne, quando se encontrava quase com os p\u00e9s para a cova, meio cego e com diabetes, e j\u00e1 com alguns AVCs sofridos, foi restitu\u00eddo, a 15 de Mar\u00e7o de 2012, \u00e0 \u201cliberdade\u201d, talvez para evitar engrossar a escandalosa estat\u00edstica da mortandade dentro das pris\u00f5es\u2026<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Quantas mortes de companheiros n\u00e3o viu ele? (Toda a morte dentro da pris\u00e3o \u00e9 crime de Estado!). Quantos b\u00e1rbaros espancamentos a companheiros n\u00e3o viu ele? Quanta degrada\u00e7\u00e3o n\u00e3o viu ele? Quanto terrorismo n\u00e3o constitui o que ele sofreu e viu sofrer? Quanta tortura n\u00e3o sofreu ele? (A pris\u00e3o j\u00e1 por si \u00e9 tortura!\u2026). Quantas vezes n\u00e3o foi induzido ao suic\u00eddio? Quantas amea\u00e7as de morte n\u00e3o sofreu?<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1019 aligncenter\" alt=\"1269535783393_f\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/1269535783393_f-300x154.jpg\" width=\"369\" height=\"218\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Recusava terminantemente enviar car- tas de forma legal, porque lhe repugnava profundamente a censura e a vigil\u00e2ncia que estas sofriam. Ficava quase doente de\u00a0 tanta repugn\u00e2ncia e indigna\u00e7\u00e3o que sentia com a devassa dos seus dossi\u00eas, dissimulados entre outras papeladas relacionadas com os seus processos para despistar os carcereiros. Muitas vezes chegou mesmo a ocorrer o roubo desses mesmos dossi\u00eas por parte dos carcereiros durante as rusgas. Os seus dossi\u00eas eram compostos, entre outros pap\u00e9is,\u00a0 maioritariamente por anota\u00e7\u00f5es sobre presos espancados por carcereiros, sobre presos mortos, muitos dos quais de forma suspeita por parte dos carcereiros e outros por falta de assist\u00eancia m\u00e9dica, al\u00e9m de variad\u00edssimas exposi\u00e7\u00f5es para v\u00e1rios organismos e cadernos reivindicativos. Estava sempre atento ao que se passava. Tudo quanto tinha conhecimento, anotava com os devidos pormenores, as datas e respectivos nomes dos respons\u00e1veis, e guardava junto com os diversos objectos que tinha na cela.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Ant\u00f3nio Ferreira, indiv\u00edduo resistente e com princ\u00edpios, \u00e9tica e grande firmeza de \u00e2nimo, foi o represaliado, o perseguido, o castigado dentro do castigo com isolamentos v\u00e1rios<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#note-3394-5\"><span style=\"color: #045f9f\"><sup><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">5<\/span><\/span><\/sup><\/span><\/a><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">, por n\u00e3o se calar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dilacerante monstruosidade que representa a institui\u00e7\u00e3o pris\u00e3o \u2013 qual centro de exterm\u00ednio! -, por defender a sua dignidade e ser solid\u00e1rio com os seus companheiros. Preferia antes morrer do que deixar-se espezinhar na sua dignidade, considerado por si o seu bem mais precioso.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Palavras do Ant\u00f3nio Ferreira escritas na sua provid\u00eancia cautelar enviada a v\u00e1rios organismos nacionais e internacionais desde a pris\u00e3o de Vale de Judeus no ano de 2005: \u201c<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><i>Dentro da pris\u00e3o defendo ideias e convic\u00e7\u00f5es, por isso sou perseguido. Defendo a minha dignidade, por isso sou perseguido. Escrevo para a imprensa desde 1974, por isso sou perseguido. Tornei-me s\u00f3cio e correspondente de organiza\u00e7\u00f5es\u00a0 de Defesa dos Direitos Humanos e dos Reclusos, por isso sou perseguido. Professo ideias libert\u00e1rias, por isso sou perseguido. Chamo a aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao incumprimento das suas pr\u00f3prias regras, \u00e0 sistem\u00e1tica viola\u00e7\u00e3o da Reforma Prisional (Dec. Lei 265\/79), por\u00a0 isso sou perseguido. Combato a corrup\u00e7\u00e3o, o abuso de poder, a viol\u00eancia gratuita, a incompet\u00eancia, a sujei\u00e7\u00e3o dos presos a trabalhos com sal\u00e1rios de escravatura, por isso sou barbaramente perseguido. Finalmente (n\u00e3o t\u00e3o finalmente como isso\u2026) sou testemunha\u00a0 de acusa\u00e7\u00e3o (aqui entramos na parte mais delicada para eles, e a mais perigosa para mim!) em v\u00e1rios processos que correm\u00a0 nos tribunais contra funcion\u00e1rios desta pris\u00e3o (Vale de Judeus) que ali s\u00e3o constitu\u00eddos arguidos na qualidade de presum\u00edveis implicados em crimes de corrup\u00e7\u00e3o, abuso de poder e morte de reclusos. Por isso sou odiado, perseguido, reprimido e amea\u00e7ado de morte!\u201d<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o obstante todas as obstru\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 pris\u00e3o, atrav\u00e9s do seu esfor\u00e7o pr\u00f3prio aprendeu a ler, a profiss\u00e3o de radiot\u00e9cnico, de serralheiro e de torneiro mec\u00e2nico com a categoria de profissional. Era um autodidacta. Leu livros sobre hist\u00f3ria, sociologia, pol\u00edtica, marxismo, anarquismo, filosofia, ecologia, psicologia, psiquiatria, antipsiquiatria, f\u00edsica, qu\u00edmica, astronomia, astrologia e ci\u00eancia. Quanto mais lia, mais consci\u00eancia de si ganhava, logo mais revoltado se encontrava. E as palavras para ele tinham significado. N\u00e3o era um ret\u00f3rico e um malabarista da palavra. Pensava pela sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a, logo era considerado perigoso para o sistema. N\u00e3o era nada indiferente ao que ocorria \u00e0 sua volta, tanto local como globalmente. Pelo contr\u00e1rio: era um indiv\u00edduo socialmente informado e preocupado. E comentava com espanto, preocupado e todo exaltado, \u201cpor que \u00e9 que as pessoas fora dos muros n\u00e3o se revoltam ao ponto de p\u00f4r as estruturas do dom\u00ednio que as destr\u00f3i de patas ao ar?!\u2026 Como \u00e9 que as pessoas ainda continuam a papar o discurso dos pol\u00edticos e a sustentar o dom\u00ednio que as submete a \u201cviver\u201d na ignom\u00ednia?!\u201d. Ele vibrava com indigna\u00e7\u00e3o selvagem com o que se passava perto de si, bem como fora de muros. Sim, selvagem porque nunca se deixou domesticar. Ele era insubmisso e manifestava os seus sentimentos de uma forma nada amb\u00edgua. Era frontal e desprezava as \u201cboas maneiras\u201d sociais nas quais encontrava muita hipocrisia e representa\u00e7\u00e3o. Ele sentia as injusti\u00e7as deste mundo de uma forma exaltada, palpitante e com um profundo desejo de combat\u00ea-las com todas as suas for\u00e7as e capacidades. Ah!, como ele comentava, barafustava, estrilhava, sofria e vivia os acontecimentos que lhe chegavam atrav\u00e9s dos jornais, da r\u00e1dio (ainda n\u00e3o havia televisores nas celas na altura) e mais adiante atrav\u00e9s da televis\u00e3o! E como ele conhecia t\u00e3o bem a mentira do discurso do estado!\u2026 Como lhe repugnava o discurso charlat\u00e3o e mentiroso dos pol\u00edticos!\u2026 Era um inadaptado dentro e fora dos muros.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1020 aligncenter\" alt=\"images\" src=\"https:\/\/cumplicidade.noblogs.org\/files\/2014\/03\/images.jpg\" width=\"395\" height=\"339\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">O Ant\u00f3nio Ferreira, refer\u00eancia para os companheiros que n\u00e3o se deixam degradar e vender, era visto e sentido com simpatia e fasc\u00ednio pelos que o rodeavam como um companheiro na verdadeira acep\u00e7\u00e3o da palavra. Fazia palestras e esclarecia os seus companheiros que desconheciam os seus direitos. Inspirava total confian\u00e7a e companheirismo entre estes. Era solid\u00e1rio e generoso, homem de palavra, sempre ao lado dos seus companheiros, fomentando o companheirismo, a leitura de bons livros, a luta pela defesa da dignidade e da liberdade, insuflando \u00e2nimos, for\u00e7a interior e resist\u00eancia para o avan\u00e7ar da luta contra os aguilh\u00f5es do poder. Ele era um indiv\u00edduo altivo, indom\u00e1vel, inimigo da autoridade, lutador, andava sempre em constante estado de indigna\u00e7\u00e3o, sempre a ferver e a arder de profunda revolta, e constantemente em confronta\u00e7\u00e3o contra os carcereiros e outros serventu\u00e1rios do poder, contra a institui\u00e7\u00e3o pris\u00e3o, de uma forma corajosa, com valentia e determina\u00e7\u00e3o exaltada e destemida, o que, por vezes, chegava a assustar os companheiros mais pr\u00f3ximos pelas consequ\u00eancias que da\u00ed poderiam surgir para si. Ele transpirava revolta por todos os seus poros. E muitas vezes era visto e sentido como uma bomba prestes a explodir, de tanta revolta impregnada em todo ele.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Os detractores, alguns aut\u00eanticos estalinistas que fazem e desfazem a hist\u00f3ria, pessoas que com a vers\u00e3o policial na boca pareciam mais pol\u00edcias do que a pr\u00f3pria pol\u00edcia no sentido de inventarem hist\u00f3rias (como a mentira sobre a morte de um pastor e do seu c\u00e3o pela qual o Ant\u00f3nio teria sido condenado), trataram de pint\u00e1-lo como um imoralista, de criar ju\u00edzo p\u00fablico e de fabricar opini\u00e3o, no entanto n\u00e3o poder\u00e3o apagar o que o Ant\u00f3nio Ferreira foi e representa, e toda a extraordin\u00e1ria considera\u00e7\u00e3o de todos os presos em luta e outro\/as companheiro\/as que o conheceram e partilharam com ele momentos, tanto fora como dentro da pris\u00e3o. Ningu\u00e9m pretende coloc\u00e1-lo num pedestal, ele seria o primeiro a recus\u00e1-lo porque n\u00e3o aceitava pedestais para ningu\u00e9m. No entanto \u00e9 importante p\u00f4r os pontos nos is. Tinha a capacidade de reconhecer os seus erros dentro dos caminhos de fora-da- lei, nunca o fez perante o Estado, ao qual n\u00e3o reconhecia qualquer legitimidade. O curr\u00edculo destes detractores e pseudo-cr\u00edticos, alguns dos quais jornalistas-pol\u00edcia, comparado com a sua folha de servi\u00e7o, s\u00f3 revela demagogia, servid\u00e3o ao Poder e muitos sapos vivos engolidos devido \u00e0 sua cumplicidade para com este. Mas o que sabem estes hip\u00f3critas e falsos moralistas sobre o que \u00e9 viver constantemente sobre o fio da navalha e em rebeli\u00e3o permanente contra o poder e as suas v\u00e1rias ciladas? O que sabem eles de dignidade? Alguns n\u00e3o sabem nada da luta clandestina e o que isso implica e significa. E nenhum cabelo deles chegaria aos calcanhares do Ant\u00f3nio em termos de estar neste mundo em confronto constante, ainda que submetido \u00e0s piores condi\u00e7\u00f5es da pris\u00e3o que \u00e9 a m\u00e1xima express\u00e3o da opress\u00e3o.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Ele deixava os carcereiros e outros funcion\u00e1rios estupefactos e amedrontados com as suas invectivas, amea\u00e7as de den\u00fancia e reivindica\u00e7\u00f5es proferidas em alto e bom som, fazendo ressoar o eco das suas palavras pelas paredes da sufocante arquitectura prisional.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Na d\u00e9cada de 80, na pris\u00e3o de Pinheiro da Cruz, por ordem arbitr\u00e1ria dos carcereiros, todos os presos que se encontravam no p\u00e1tio do campo de futebol sa\u00edram excepto o Ferreira, que enfrentou como um le\u00e3o, peito a peito, um sub-chefe e outros carcereiros, com um rol de acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e de espancamentos a presos, deixando-lhes as caras vermelhas, inchadas de ira e com o rabo entre as pernas. Ele tinha informa\u00e7\u00e3o de muita da corrup\u00e7\u00e3o e podrid\u00e3o existente na pris\u00e3o e jogava com essa informa\u00e7\u00e3o com frontalidade e destemidamente.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Nenhum carcereiro o espancou. Dizia em alto e bom som:<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\"><i>\u201cN\u00e3o permito, em circunst\u00e2ncia alguma, que nenhum carcereiro me toque nem sequer com uma unha. Morro de seguida, mas primeiro mando-o imediatamente para a \u201csucata\u201d!<\/i><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">O Ferreira era o que n\u00e3o falava com eles (b\u00f3fias e outros funcionarios da pris\u00e3o), e todo aquele que fosse visto a falar muito com eles era considerado suspeito para si. Ele tinha os carcereiros e muitos presos armados em pol\u00edcias, vigiando cada passo que dava. Todos os presos que se atreviam a acompanh\u00e1-lo no recreio ficavam registados a tinta vermelha nos seus processos internos, o que, s\u00f3 por si, os estigmatizava e prejudicava de forma informal e prepotentemente nos processos para sa\u00edda em liberdade condicional e em rela\u00e7\u00e3o aosseus direitos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Para preservar o mais profundo do seu eu, a sua dignidade, a sua personalidade, depois destes 52 anos de pris\u00e3o, criou toda uma coura\u00e7a, composta de amargura, azedume, aspereza e simultaneamente misturada com uma exaltada e assustadora revolta, que chegava por vezes a afastar o\/as companheiro\/as mais chegado\/as a si. S\u00f3 quem o conhecia um pouco mais a fundo sabia da sua grande sensibilidade e generosidade, bem como de alguns dos seus sonhos que o faziam avan\u00e7ar e resistir. O Ant\u00f3nio manifestou v\u00e1rias vezes em p\u00fablico o seu profundo agradecimento pela extraordin\u00e1ria solidariedade que recebeu de companheiros\/as tanto a n\u00edvel nacional como internacional e que devido a esse apoio conseguiu resistir e escapar de ser morto na pris\u00e3o. Solidariedade essa que n\u00e3o lhe faltou \u00e0 sa\u00edda da pris\u00e3o e que lhe deu um tecto at\u00e9 ao seu \u00faltimo dia de vida. Bem hajam a todas\/os estas\/es companheiras\/os!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00c9 com profunda simpatia, companheirismo e amizade que partilhamos a sua mem\u00f3ria, e com profunda dor que sentimos o seu falecimento.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">O esp\u00edrito do Ant\u00f3nio Ferreira n\u00e3o morreu! At\u00e9 sempre companheiro!Do\/as teus\/tuas companheiro\/as.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Jos\u00e9 Alberto<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #474747\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Notas:<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Pena de pris\u00e3o aplicada no regime fascista por \u201cmau com- portamento\u201d para al\u00e9m da pena inicial.<\/span><\/span><\/span><a href=\"#return-note-3394-1\"><span style=\"color: #045f9f\"><span style=\"font-family: Cambria Math,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u21a9<\/span><\/span><\/span><\/a><\/li>\n<li><span style=\"color: #090909\">\u00a0<span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">No c\u00f3digo penal fascista, quando um tribunal condenava um indiv\u00edduo a uma pena qualquer, por exemplo, de 5 anos de pris\u00e3o e com a delinqu\u00eancia, isto significava que o indiv\u00edduo poderia cumprir, \u00e0 parte dos 5 anos, mais um per\u00edodo de pena de 3 anos;\u00a0 e se o indiv\u00edduo tinha uma outra san\u00e7\u00e3o disciplinar, aplicavam-lhe outro per\u00edodo de 3 anos; e se voltava a ter outro castigo, acrescentavam-lhe outro per\u00edodo de 3 anos, ou seja, o indiv\u00edduo poderia cumprir no total: 5 + 3 + 3 + 3 = 14 anos de pris\u00e3o. No caso do Ant\u00f3nio, se n\u00e3o tivesse ocorrido o 25 de Abril de 1974, poderia ter cumprido 24 + 3 + 3 + 3 = 33 anos de pris\u00e3o. A delinqu\u00eancia era uma medida punitiva que poderia ir at\u00e9 3 per\u00edodos de penas de 3 anos de cada vez, que poderiam ser acrescentadas \u00e0 pena inicial, de acordo com os crit\u00e9rios das direc\u00e7\u00f5es das pris\u00f5es.\u00a0 E ser considerado de dif\u00edcil correc\u00e7\u00e3o pelo tribunal implicava medidas de vigil\u00e2ncia muito especiais sobre o indiv\u00edduo.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#return-note-3394-2\"><span style=\"color: #045f9f\"><span style=\"font-family: Cambria Math,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u21a9<\/span><\/span><\/span><\/a><\/li>\n<li><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">Em 2009 o poder legislativo substituiu o regime 111\u00ba por outro equivalente. O artigo 111\u00ba do decreto-lei n\u00ba 265\/79 de 1 de Agosto diz: Medidas especiais de seguran\u00e7a 1- Podem ser aplicadas ao recluso medidas especiais de segu- ran\u00e7a quando, devido ao seu comportamento ou ao seu estado ps\u00edquico, exista perigo s\u00e9rio de evas\u00e3o ou da pr\u00e1tica de actos de viol\u00eancia contra si pr\u00f3prio ou contra pessoas ou coisas. 2- S\u00e3o autorizadas as seguintes medidas especiais de seguran\u00e7a: a) Proibi\u00e7\u00e3o do uso de determinados objectos ou a sua apreens\u00e3o; b) Observa\u00e7\u00e3o do recluso durante o per\u00edodo nocturno; c) Separa\u00e7\u00e3o do recluso da restante popula\u00e7\u00e3o prisional; d) Priva\u00e7\u00e3o ou restri\u00e7\u00f5es \u00e0 perman\u00eancia a c\u00e9u aberto; e) Utiliza\u00e7\u00e3o de algemas; f) Internamento do recluso numa cela especial de seguran\u00e7a. 3- A aplica\u00e7\u00e3o das medidas previstas no n\u00famero anterior \u00e9 autorizada quando de outro modo n\u00e3o seja poss\u00edvel evitar ou afastar o perigo da tirada ou de fuga de reclusos ou quando exista perturba\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel da ordem e da seguran\u00e7a do estabelecimento. 4- As medidas especiais de seguran\u00e7a mant\u00eam-se apenas enquanto durar o perigo que determinou a sua aplica\u00e7\u00e3o. 5- As medidas referidas no n\u00ba 2 n\u00e3o podem ser utilizadas a t\u00edtulo de medida disciplinar.<\/span><\/span><\/span><a href=\"#return-note-3394-3\"><span style=\"color: #045f9f\"><span style=\"font-family: Cambria Math,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u21a9<\/span><\/span><\/span><\/a><\/li>\n<li><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">. Big Brother designa o nome que os presos deram \u00e0 pris\u00e3o constru\u00edda (de forma sofisticada e cheia de c\u00e2maras de video-vigil\u00e2ncia) dentro da pris\u00e3o de Pinheiro da Cruz na d\u00e9cada de noventa, totalmente separada e isolada, ao ponto de s\u00f3 os guardas ou outros funcion\u00e1rios prisionais, excepto os advogados, poderem ter contacto com os presos a\u00ed isolados separadamente entre si, em aut\u00eanticas gaiolas de cimento armado e a\u00e7o.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#return-note-3394-4\"><span style=\"color: #045f9f\"><span style=\"font-family: Cambria Math,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u21a9<\/span><\/span><\/span><\/a><\/li>\n<li><span style=\"color: #090909\">\u00a0<span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">A pris\u00e3o em si \u00e9 castigo\/tortura. O indiv\u00edduo condenado a pena de pris\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 a sofrer castigo e dentro do castigo que \u00e9 a pris\u00e3o sofre outros castigos, como por exemplo, em celas de \u201chabita\u00e7\u00e3o\u201d, em celas disciplinares, em regimes de total isola- mento, com separa\u00e7\u00e3o de toda a popula\u00e7\u00e3o prisional, etc., para al\u00e9m das prepot\u00eancias inerentes a quem exerce autoridade.<\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #090909\"><span style=\"font-family: Georgia,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><a href=\"#return-note-3394-5\"><span style=\"color: #045f9f\"><span style=\"font-family: Cambria Math,serif\"><span style=\"font-size: small\">\u21a9<\/span><\/span><\/span><\/a><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>52 anos de sequestro estatal!\u2026 Ant\u00f3nio Ferreira de Jesus, natural de Oliveira do Bairro, nasceu a 30 de Outubro de 1940 e faleceu a 6 de Novembro de 2013. 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